A guerra política chinesa, codificada na doutrina do Exército Popular de Libertação (PLA) como “Três Guerras” (三战, sān zhàn — guerra de opinião pública, guerra psicológica e guerra jurídica), articula a integração estratégica de operações informacionais, psicológicas e lawfare como instrumentos contínuos de modelagem do ambiente decisório de adversários estatais e não estatais, em apoio aos objetivos políticos do Partido Comunista Chinês.


1. Definição e Escopo

A “guerra política” chinesa, no sentido aqui delineado, é o quadro doutrinário e operacional pelo qual o Partido Comunista Chinês (PCCh) e o Exército Popular de Libertação (PLA) integram instrumentos não cinéticos — informacionais, psicológicos, jurídicos, econômicos e organizacionais — à condução do confronto interestatal e à modelagem do ambiente estratégico internacional. O conceito guarda continuidade explícita com a tradição leninista da guerra política como “continuação da política por outros meios”, mediada por décadas de prática do PCCh em frentes únicas (统战, tǒngzhàn) e em propaganda doméstica e externa.

O núcleo doutrinário formalizado é o das Três Guerras (三战, sān zhàn), incorporado em 2003 às “Regras Políticas do Trabalho do Exército Popular de Libertação” (中国人民解放军政治工作条例): (1) guerra de opinião pública (舆论战, yúlùn zhàn) — modelagem do ambiente informacional global e doméstico via mídia, plataformas digitais, narrativas oficiais e canais de difusão; (2) guerra psicológica (心理战, xīnlǐ zhàn) — operações destinadas a influenciar a vontade, a moral e o processo decisório de adversários e populações; (3) guerra jurídica ou lawfare (法律战, fǎlǜ zhàn) — uso estratégico do direito interno, do direito internacional e de foros jurídicos para legitimar posições chinesas, deslegitimar adversários e modelar o regime normativo internacional.

A doutrina das Três Guerras integra-se a um conjunto mais amplo de práticas analisadas pela literatura como sharp power (Walker e Ludwig, 2017) e como operações de influência da Frente Unida (Brady, 2017): instrumentalização de diásporas chinesas, cooptação de elites econômicas e políticas em terceiros países, instrumentalização de institutos Confúcio e plataformas acadêmicas, e operação coordenada sobre plataformas digitais (WeChat, TikTok, RedNote/Xiaohongshu). O traço distintivo, em relação a doutrinas comparáveis — notadamente a doutrina russa de guerra informacional —, é a articulação simultânea com infraestrutura econômica e organizacional civil de longuíssimo prazo, e a prevalência do registro de coerção implícita sobre o registro de disrupção aberta.


2. Etimologia e Origem Conceitual

O termo sān zhàn (三战) traduz-se literalmente como “três guerras”. Seus três componentes desdobram a polissemia chinesa do termo zhàn (战), que cobre simultaneamente os sentidos de “guerra”, “combate” e “luta” — registro mais amplo, portanto, do que o war inglês ou o “guerra” português. Yúlùn (舆论) traduz-se por “opinião pública”, mas conserva carga ativa: yú (舆) designa “veículo”, “transporte” — yúlùn é, na origem, “o que transporta a discussão pública”. Xīnlǐ (心理) é “psicologia” no sentido genérico — o termo, sem modificadores, designa o estudo da mente. Fǎlǜ (法律) é “lei” no sentido jurídico-positivo. Lawfare — termo cunhado por Charles Dunlap em 2001 — é a tradução técnica que mais se aproxima de fǎlǜ zhàn, embora a doutrina chinesa preceda em décadas a popularização ocidental do conceito.

Genealogicamente, a doutrina das Três Guerras articula três tradições. Primeiro, a tradição leninista de guerra política, incorporada ao PCCh via mediação soviética entre 1921 e 1949 e exposta nos clássicos de Mao Zedong sobre a guerra prolongada (1938) e o papel da agitação política nas etapas da guerra revolucionária. Segundo, a tradição clássica chinesa do tratado militar — Sūnzǐ Bīngfǎ (孙子兵法, A Arte da Guerra, séc. V a.C.) e Sānshíliù Jì (三十六计, Os Trinta e Seis Estratagemas) —, que sublinha a precedência da estratégia indireta, da decepção e da modelagem do ambiente sobre o confronto direto. Terceiro, a recodificação do final dos anos 1990, sintetizada no influente Unrestricted Warfare (超限战, chāo xiàn zhàn, “guerra além-limites”) dos coronéis Qiao Liang e Wang Xiangsui (1999), que postula a obsolescência das fronteiras categoriais entre instrumentos militares, econômicos, jurídicos, informacionais e ecológicos no conflito interestatal contemporâneo.

A integração doutrinária das Três Guerras nas Regras Políticas do Trabalho do PLA em 2003 corresponde, institucionalmente, à formalização desse longo arco. O texto de 2003 atribui a responsabilidade primária ao Departamento Político Geral do PLA — reorganizado em 2015, no quadro das reformas militares de Xi Jinping, como Departamento de Trabalho Político da Comissão Militar Central (军委政治工作部) —, com colaboração da Força Estratégica de Apoio (战略支援部队), criada em 2015 e reorganizada em 2024 como Força Aeroespacial, Força Cibernética e Força de Apoio Informacional, esta última herdeira direta dos quadros encarregados de operações informacionais.


3. Desenvolvimento Histórico

A fase fundacional (1921–1949) corresponde à institucionalização da guerra política no PCCh ainda em fase revolucionária. Os comissários políticos, modelados sobre o aparato soviético, articulam o trabalho de massas, a propaganda, a frente única e a doutrinação ideológica nas unidades. O Departamento de Frente Única (统战部, tǒngzhàn bù) é estabelecido em 1942 e torna-se permanente em 1948 — instrumento central da política externa partidária mesmo após 1949.

A fase maoísta (1949–1978) consolida o aparato propagandístico estatal e estende as práticas de frente única a movimentos revolucionários internacionais, particularmente em África, América Latina e Sudeste Asiático. A doutrina militar do período enfatiza a “guerra do povo”, em que a dimensão política é constitutiva da dimensão cinética. A Revolução Cultural (1966–1976) consome boa parte da capacidade analítica externa, mas sedimenta padrões de mobilização ideológica em massa.

A fase de reforma e abertura (1978–2002) opera transformação substantiva. As reformas Deng Xiaoping abrem o país econômica e tecnologicamente, e exigem reformulação do quadro doutrinário para um contexto de interdependência crescente. Os anos 1990, em particular, vêem o surgimento de literatura militar inovadora — Unrestricted Warfare (1999) é o exemplar mais conhecido, mas o período produz dezenas de tratados na China Military Science e em editoras militares oficiais que recodificam o vocabulário estratégico para a era informacional. A campanha sobre Taiwan na crise de 1995–1996 (exercícios de mísseis no estreito) e a reação chinesa ao bombardeio da embaixada chinesa em Belgrado (1999) catalisam ajustes operacionais.

A fase de codificação (2003–2012) corresponde à formalização das Três Guerras em 2003 e à expansão do aparato mediático internacional. A China Central Television lança CCTV International (2004); Xinhua expande presença global; o sistema de Institutos Confúcio, instalado a partir de 2004, cobre, no auge, mais de 500 unidades em 140 países. A doutrina é integrada a exercícios militares e a doutrinas operacionais conjuntas. Shambaugh (2007) oferece análise pioneira do sistema de propaganda chinês, sublinhando sua escala, sua sofisticação crescente e suas limitações persistentes em audiência efetiva.

A fase Xi Jinping (2012–presente) marca expansão sistêmica, reorganização institucional e centralização sob o PCCh. A criação da Força Estratégica de Apoio (2015), a reforma do Departamento de Trabalho Político (2015), a publicação dos China Standards 2035 e do Made in China 2025, e a expansão do Belt and Road Initiative (BRI, 2013) integram um quadro em que a guerra política se articula com infraestrutura, normatividade técnica e financiamento. O documento da Liga Anti-China do Wilson Center (Brady, 2017) é referência analítica decisiva sobre o salto qualitativo das operações de influência sob Xi. Os relatórios anuais do Departamento de Defesa dos Estados Unidos sobre desenvolvimento militar chinês (DoD, 2023) registram a sofisticação crescente da integração entre operações informacionais militares e atividades civis-partidárias.


4. Debate Teórico

Três debates organizam a literatura especializada.

O primeiro debate é conceitual-tipológico, e versa sobre o estatuto analítico do conceito de “guerra política chinesa”. Para uma corrente — exemplificada por Brady (2017), Mattis e Brazil (2019) e Walker e Ludwig (2017) —, há doutrina coerente, com lineage institucional documentável e expressão crescente em operações observáveis em terceiros países. Para outra corrente, mais cautelosa, parte significativa do que se rotula como “guerra política chinesa” é projeção analítica ocidental sobre práticas heterogêneas com graus variáveis de coordenação central; ainda há, nessa leitura, traços importantes de improvisação tática, competição interagências e fricção entre o aparato civil e o aparato militar. A discussão dialoga estreitamente com debate análogo sobre a doutrina russa e sobre o risco de “doutrinização ocidental” das práticas adversárias.

O segundo debate é comparativo. Em que medida as Três Guerras se distinguem do conceito ocidental de operações de informação e do conceito russo de informatsionnoye protivoborstvo? Para Walker e Ludwig (2017), o traço distintivo é a articulação com infraestrutura econômica e organizacional civil de longuíssimo prazo — sharp power, em sua formulação, é categoria irredutível tanto a soft power quanto a hard power. Para Mattis e Brazil (2019), o componente de espionagem articula-se de modo mais integrado, na prática chinesa, com a captação econômica e tecnológica de longo prazo do que ocorre na prática russa.

O terceiro debate é ético-normativo e regulatório. Como Estados liberais devem responder a operações de influência conduzidas, em parte significativa, por meios e canais que, em condições normais, são protegidos como expressão legítima — diásporas, jornalismo, intercâmbio acadêmico, investimento estrangeiro direto, organizações não governamentais? A literatura europeia sobre o Foreign Information Manipulation and Interference (FIMI) e a literatura estadunidense sobre o Foreign Agents Registration Act (FARA) refletem essa tensão, e a resposta canadense pós-2022 (Bill C-70, Foreign Interference and Security of Information Act) é caso particularmente debatido por equilibrar restrição operacional e proteção de liberdades civis.


5. Casos Documentados

Operações sobre Taiwan (continuum 1996–presente). Taiwan é o teatro permanente de aplicação plena das Três Guerras. A guerra de opinião pública opera via inundação informacional de redes sociais locais (LINE, Facebook, plataformas vídeo); a guerra psicológica articula-se a exercícios militares cinéticos cuja função é tanto demonstrar capacidade quanto modelar a percepção popular taiwanesa sobre a inevitabilidade da unificação; a guerra jurídica investe na deslegitimação internacional do estatuto taiwanês, com pressão sobre terceiros Estados para revogação de relações diplomáticas (em 2016, Taiwan tinha 22 aliados diplomáticos; em 2024, 12). O ciclo eleitoral taiwanês de janeiro de 2024 foi objeto de operações documentadas por equipes locais (Doublethink Lab, Information Operations Research Group) e por equipes internacionais (Microsoft Threat Analysis Center, Recorded Future).

Operações sobre Hong Kong (2014, 2019–2020). As manifestações pró-democracia de 2014 (“Revolução dos Guarda-chuvas”) e de 2019 foram objeto de campanhas coordenadas de Twitter e Facebook documentadas em remoções de larga escala pelas plataformas em 2019 — Twitter removeu 936 contas associadas atribuídas, e Facebook removeu redes coordenadas atribuídas a operadores estatais chineses. A guerra jurídica articulou-se à imposição da Lei de Segurança Nacional de Hong Kong (2020), cuja arquitetura legal permite extraterritorialidade explícita.

Operações no Mar do Sul da China. Construção de ilhas artificiais, instrumentalização sistemática de frota de pesca civil (“milícia marítima”), e batalha jurídica em torno da arbitragem PCA (2016, rejeitada pela China) constituem aplicação integrada das Três Guerras à projeção territorial. O caso é central na literatura de Mattis e Brazil (2019) e nos relatórios anuais do DoD (2023).

Operações de Frente Única em terceiros países. Brady (2017) documenta extensivamente o caso neozelandês — cooptação política de membros do Parlamento, instrumentalização de associações da diáspora, presença em conselhos universitários e mediáticos. Casos análogos foram documentados na Austrália (escândalo Huang Xiangmo, 2018), no Canadá (relatórios do CSIS e da Comissão Hogue, 2023–2024), no Reino Unido (caso Christine Lee, 2022) e na Alemanha (caso Jian Guo, 2024). A escala latino-americana é menos documentada, mas começa a receber atenção sistemática.

Operações de plataforma digital. A integração entre WeChat (controle direto de comunicação da diáspora), TikTok (suspeita persistente de modulação algorítmica, debatida em audiências do Congresso estadunidense em 2023–2024) e operações de bot em plataformas ocidentais constitui infraestrutura de longuíssimo prazo. O caso Spamouflage Dragon — rede atribuída ao Ministério da Segurança Pública chinês, documentada por Graphika, Mandiant e Meta entre 2019 e 2024 — é o caso paradigmático de operação coordenada e persistente em redes ocidentais.


6. Implicações para o Contexto Brasileiro

O Brasil é alvo de relevância crescente para o aparato de guerra política chinesa, em razão da convergência de três fatores: peso geoeconômico no Cone Sul, estatuto de principal parceiro comercial chinês na região (intercâmbio bilateral acima de US$ 150 bilhões em 2023, segundo dados da SECEX), e centralidade no bloco BRICS expandido. A exposição brasileira opera, no entanto, predominantemente em registro de influência infraestrutural (investimentos em energia, telecomunicações, ferrovias, portos, agronegócio), em registro de influência institucional (cooperação acadêmica, programas governamentais, intercâmbio de elites técnicas e políticas) e em registro de influência mediática (parcerias de conteúdo, presença CGTN/Xinhua), e não primariamente em registro de operações cinéticas ou de disrupção aberta.

A presença mediática chinesa institucional é significativa. CGTN-Português opera desde 2009 com produção dedicada ao Brasil; Xinhua mantém agência em Brasília e em São Paulo; China Daily estabelece parcerias de inserção em veículos brasileiros; o Instituto Confúcio mantinha, antes da contração global de 2020–2024, 10 unidades no Brasil em parceria com universidades federais e estaduais. A presença em WeChat e em redes específicas da comunidade chinesa no Brasil (aproximadamente 250 mil pessoas, com forte concentração em São Paulo) é canal de longuíssimo prazo de configuração identitária e política da diáspora.

Do ponto de vista da capacidade brasileira de resposta, o quadro é descompassado em relação à escala da exposição. O Comando de Defesa Cibernética (ComDCiber) não possui mandato explícito sobre operações de influência estatal estrangeira; a Agência Brasileira de Inteligência (ABIN) produz análise relevante, mas com restrições operacionais e de divulgação que limitam o alcance preventivo; o Itamaraty opera diplomacia bilateral sofisticada, mas o instrumental analítico sobre Três Guerras é, no agregado, restrito a círculos técnicos especializados. A Anatel e a Anpd dispõem de instrumentos para regular plataformas e fluxos de dados, mas o quadro infralegal sobre operações de influência estrangeira ainda não foi desenvolvido em paralelo ao europeu (FIMI framework) ou ao canadense (Bill C-70).

As lacunas doutrinárias e regulatórias são consequentes. Primeiro, ausência de tratamento legal específico para operações de influência estrangeira fora do recorte estritamente eleitoral. Segundo, fragilidade da capacidade analítica pública sobre o aparato de Frente Única e sobre as Três Guerras — a produção brasileira sobre o tema é restrita a poucos centros (NEGISC/GEPSI/IREL/UnB, IPRI/FUNAG, IRI/USP, BRICS Policy Center/PUC-Rio), e a tradução de literatura chinesa primária para o português é praticamente inexistente. Terceiro, ausência de quadro doutrinário militar brasileiro próprio que articule a dimensão informacional-chinesa em contraste com a russa e a ocidental.

Casos documentados no Brasil e na América Latina incluem: documentação por equipes de pesquisa brasileiras (NetLab/UFRJ, LAUT, MonitorDigital) de amplificação coordenada de narrativas convergentes com posições oficiais chinesas em torno da pandemia de COVID-19 (2020–2022), da posição brasileira no Conselho de Direitos Humanos da ONU sobre Xinjiang (2019–2024), e da expansão de infraestrutura 5G (debate Huawei, 2020–2022); a investigação por equipes regionais (DFRLab, Stanford Internet Observatory) sobre operações Spamouflage com componente em português e em espanhol; e os relatórios da AS/COA e do CSIS sobre presença política chinesa no Equador, na Argentina, na Venezuela e em El Salvador. A janela aberta pela expansão BRICS e pelo realinhamento sino-russo elevou a saliência regional sem que tenha sido seguida, no Brasil, de elaboração analítica proporcional.


7. Ver Também


8. Referências

BRADY, Anne-Marie. Magic Weapons: China’s Political Influence Activities under Xi Jinping. Washington: Wilson Center, 2017.

GILL, Bates; HUANG, Chin-Hao. China’s expanding peacekeeping role. SIPRI Policy Brief, Stockholm, fev. 2009.

MATTIS, Peter; BRAZIL, Matthew. Chinese Communist Espionage: An Intelligence Primer. Annapolis: Naval Institute Press, 2019.

QIAO, Liang; WANG, Xiangsui. Unrestricted Warfare [超限战]. Beijing: PLA Literature and Arts Publishing House, 1999.

SHAMBAUGH, David. China’s propaganda system: institutions, processes and efficacy. China Journal, Canberra, n. 57, p. 25-58, 2007.

UNITED STATES. Department of Defense. Military and Security Developments Involving the People’s Republic of China 2023: Annual Report to Congress. Washington: Department of Defense, 2023.

WALKER, Christopher; LUDWIG, Jessica. The meaning of sharp power: how authoritarian states project influence. Foreign Affairs, Nova York, nov. 2017.


Verbete submetido ao NEGISC — Núcleo de Estudos em Guerra Informacional e Segurança Cognitiva / GEPSI / IREL / UnB. Licença CC BY-SA 4.0.