A doutrina russa de guerra informacional (информационное противоборство, informatsionnoye protivoborstvo) é o quadro estratégico-operacional pelo qual a Federação Russa concebe a informação como dimensão contínua e indivisível do confronto interestatal, articulando, em tempo de paz e em tempo de guerra, ações técnico-cibernéticas, psicológico-cognitivas, mediáticas, diplomáticas e cinéticas sobre adversários, terceiros e a própria população.


1. Definição e Escopo

A doutrina russa de guerra informacional é, antes de tudo, uma concepção totalizante do espaço informacional como ambiente permanentemente contestado, no qual o Estado russo entende-se simultaneamente como alvo de ofensiva sistêmica conduzida pelo Ocidente — particularmente pelos Estados Unidos, pela OTAN e por atores não governamentais a eles associados — e como ator legitimado a empregar meios informacionais para defesa e projeção de poder. O termo doutrinário consagrado é informatsionnoye protivoborstvo (информационное противоборство), traduzido na literatura ocidental como “confrontação informacional”, e não “guerra de informação” — distinção que importa, pois protivoborstvo designa um estado de oposição contínua, sem fronteira nítida entre paz e guerra, ao passo que voyna (война, “guerra”) supõe declaração formal e enquadramento jurídico-internacional preciso.

O escopo da doutrina articula duas grandes dimensões, frequentemente designadas pelo Estado-Maior Geral russo como informatsionno-tekhnicheskaya (informacional-técnica) e informatsionno-psikhologicheskaya (informacional-psicológica). A primeira abrange operações cibernéticas defensivas e ofensivas, guerra eletrônica, ataques a infraestrutura crítica, espionagem digital e manipulação de sistemas técnicos de comando e controle. A segunda abrange desinformação, guerra psicológica, operações de informação em sentido estrito, controle reflexivo, gestão estratégica de narrativas, instrumentalização de mídias estatais (RT, Sputnik, Channel One) e de redes de proxies, e operações coordenadas em plataformas digitais. A doutrina pressupõe a integração permanente das duas dimensões — ataque cibernético sem narrativa associada é considerado tecnicamente eficaz mas estrategicamente subaproveitado.

Distingue-se a doutrina russa de duas leituras ocidentais com as quais é frequentemente confundida. A primeira é a noção de “guerra híbrida” ou hybrid warfare, categoria analítica ocidental que russos próprios consideram imprecisa e projetiva. A segunda — e mais consequente — é o assim chamado “Gerasimov Doctrine”, que designa, no debate ocidental pós-2014, uma suposta doutrina formalizada por Valery Gerasimov em 2013 segundo a qual a Rússia teria adotado a guerra híbrida como modus operandi estratégico. Como se demonstrará, essa leitura é, em medida importante, uma construção ocidental — admissão feita pelo próprio analista que mais contribuiu para difundir o termo, Mark Galeotti (2018).


2. Etimologia e Origem Conceitual

O par lexical central é informatsionnoye protivoborstvo (информационное противоборство). Informatsiya (информация) preserva o sentido genérico do termo latino informatio — dar forma a, formar; protivoborstvo combina protiv (против, “contra”) e borba (борьба, “luta”, “combate”), com a partícula deverbal que sublinha o caráter de processo contínuo. A tradução literal seria “luta-contra informacional”; “confrontação informacional” é a tradução técnica preferível, e “guerra de informação” é tradução problemática que importa, sub-repticiamente, a moldura ocidental do information warfare.

Outros termos doutrinários relevantes formam a constelação semântica do conceito. Informatsionnaya voyna (информационная война, “guerra de informação”) é usado em contextos retóricos, mas é menos preciso doutrinariamente. Aktivnyye meropriyatiya (активные мероприятия, “medidas ativas”) designa o vocabulário soviético clássico — codificado no KGB e estudado por Rid (2020) — de operações encobertas de influência política, das quais a doutrina contemporânea é descendente direta. Reflexivnoye upravleniye (рефлексивное управление, controle reflexivo) designa o aparato teórico de indução de decisões adversárias; maskirovka (маскировка, maskirovka) designa a doutrina sistêmica de decepção militar.

A genealogia conceitual articula quatro tradições. Primeiro, a tradição leninista da propaganda como instrumento de Estado, codificada nas teses de 1902 e operacionalizada pelo Agitprop soviético entre 1920 e 1991. Segundo, a tradição cibernética soviética dos anos 1955–1975, particularmente as obras de Anatoly Kitov e Viktor Glushkov sobre modelagem matemática de sistemas decisórios. Terceiro, a tradição operacional do GRU e do KGB em medidas ativas, sintetizada nos anos 1970–1980 e analisada exaustivamente por Rid (2020) e Thomas (2004). Quarto, a tradição militar do Estado-Maior Geral, especialmente nos trabalhos do general Makhmut Gareev e do general Vladimir Slipchenko sobre “guerras de nova geração” (voyny novogo pokoleniya), que adaptam o aparato soviético ao ambiente pós-1991 e ao surgimento do espaço digital como domínio operacional.


3. Desenvolvimento Histórico

A fase soviética tardia (1970–1991) corresponde ao estabelecimento do vocabulário e da arquitetura institucional da influência. As aktivnyye meropriyatiya organizadas pelo Serviço A da Primeira Diretoria-Chefe do KGB conduziram, entre 1970 e 1989, centenas de operações documentadas — falsificações (“Operação INFEKTION”, atribuindo a origem do HIV a laboratórios estadunidenses, é o caso paradigmático), plantio de notícias em mídias terceiras, instrumentalização de movimentos de paz e descolonização. Rid (2020) estima que o orçamento anual soviético dedicado a medidas ativas excedia bilhões de dólares e que a infraestrutura associada empregava milhares de operadores. A tradição cibernética e a tradição reflexiva, conforme exposto, integram-se ao Estado-Maior Geral entre 1965 e 1985.

A fase de colapso e reconstituição (1991–2000) envolve a dissolução do aparato soviético, a perda parcial de quadros e infraestruturas, e o início da reconstituição. Os trabalhos do general Slipchenko sobre “guerras de sexta geração” (1999) recodificam a doutrina militar russa em torno do reconhecimento de que o eixo da supremacia bélica deslocou-se de massa cinética para precisão informacional. A primeira guerra da Chechênia (1994–1996), em particular, é frequentemente lida na literatura russa como derrota informacional, e estimula reformas substantivas na gestão midiática militar — visíveis na segunda guerra (1999–2009), em que o controle de pauta jornalística foi instrumento estratégico explícito.

A fase de consolidação institucional (2000–2013) corresponde ao período Putin-Medvedev, em que a doutrina é progressivamente integrada a documentos oficiais. A Doutrina de Segurança da Informação (2000, revisada em 2016) e a Doutrina Militar (2010, revisada em 2014 e 2024) formalizam o reconhecimento do espaço informacional como domínio de confrontação permanente. Cria-se a infraestrutura mediática internacional: a Russia Today (RT) é fundada em 2005, a Sputnik International em 2014; ambas estruturadas como instrumentos de projeção narrativa e operadas com integração estreita ao MID e aos serviços de inteligência.

A fase de aplicação operacional contemporânea (2013–presente) abre-se com a publicação, em 27 de fevereiro de 2013, do artigo de Valery Gerasimov, chefe do Estado-Maior General russo, na Voenno-Promyshlennyy Kur’yer, intitulado “O valor da ciência está na previsão” (Gerasimov, 2013/2016). O artigo descreve as guerras contemporâneas como caracterizadas por proporção 4:1 entre meios não-militares e meios militares, com ênfase em “medidas políticas, econômicas, informacionais, humanitárias e outras não-militares — aplicadas em coordenação com o potencial de protesto da população”. O texto torna-se referência ocidental e dá lugar à categoria “Gerasimov Doctrine”, aplicada à anexação da Crimeia em 2014, à guerra híbrida no Donbass, à intervenção na Síria em 2015, à interferência na eleição estadunidense de 2016, e a múltiplas operações posteriores.

A invasão em larga escala da Ucrânia, iniciada em 24 de fevereiro de 2022, marca inflexão importante. Por um lado, mostra que o componente cinético da doutrina russa segue central, contrariando leituras que reduziam a Rússia a ator preponderantemente informacional; por outro, evidencia o emprego intensivo e crescentemente sofisticado de operações informacionais — campanhas como “Doppelganger”, documentadas pelo EU DisinfoLab e por equipes de inteligência abertas, e operações coordenadas em Telegram, TikTok e X.


4. Debate Teórico

O debate central — e o que organiza grande parte da literatura especializada — diz respeito à existência e ao escopo do chamado “Gerasimov Doctrine”. A formulação foi popularizada por Mark Galeotti em texto de 2014 no blog In Moscow’s Shadows, que, em síntese acelerada, traduziu o artigo de Gerasimov e o batizou com o rótulo “Gerasimov Doctrine”. O rótulo difundiu-se exponencialmente em comunidades de defesa e segurança, e tornou-se taxonomia padrão da literatura sobre guerra híbrida.

Em 5 de março de 2018, em texto na Foreign Policy intitulado “I’m Sorry for Creating the ‘Gerasimov Doctrine’”, o próprio Galeotti retratou-se publicamente. Os termos do retrato são analiticamente decisivos. Primeiro: o artigo de Gerasimov não propunha doutrina — descrevia, na leitura russa, as guerras ocidentais contra a Rússia (cores das revoluções, “primaveras árabes” lidas como operação encoberta ocidental); o artigo é, portanto, defensivo na intenção declarada, não programático. Segundo: ler o artigo como exposição de doutrina ofensiva russa é inversão analítica que projeta sobre a Rússia o que esta diz ver no Ocidente. Terceiro: a “doutrina” não tem materialização institucional — não consta de documentos doutrinários, não estrutura currículos militares, não recebe alocação orçamentária identificável.

Subsequentemente, autores como Bartles (2016), Renz (2016) e Galeotti (2016) propõem leitura mais sóbria: a Rússia tem doutrina informacional real e consequente — informatsionnoye protivoborstvo, em sua articulação técnica e psicológica — mas essa doutrina é mais antiga, mais difusa e mais oportunística do que a categoria “Gerasimov Doctrine” sugere. O componente de improvisação tática e de exploração de janelas de oportunidade é mais relevante do que o componente de planejamento estratégico hermético. Bartles (2016), em particular, insiste que ler Gerasimov sem o contexto soviético da literatura militar russa é cometer erro de princípio.

Um segundo debate articula a relação entre doutrina e prática. Para uma corrente — exemplificada por Thomas (2004, 2011) e por leituras predominantes nos think tanks atlanticistas — há vínculo causal entre os textos doutrinários russos e operações específicas observáveis. Para outra corrente — exemplificada por Renz (2016) e parcialmente por Galeotti — esse vínculo é mais frouxo: as operações russas têm padrões reconhecíveis, mas resultam mais de cultura institucional e disponibilidade de meios do que de aplicação metódica de doutrina codificada.

Um terceiro debate é ético-normativo e diz respeito ao uso doutrinário do conceito pela própria comunidade ocidental: ao adotar o vocabulário russo (gerasimovismo, guerra híbrida, controle reflexivo) sem reflexão crítica, há o risco de reproduzir, no campo analítico ocidental, exatamente a moldura cognitiva que a doutrina russa visa instalar — informatsionnoye protivoborstvo sobre os próprios analistas que pretendem decifrá-la.


5. Casos Documentados

Anexação da Crimeia (fevereiro–março de 2014). Operação canônica da fase contemporânea, articula deslocamento de forças sem insígnia, negação plausível, narrativa de “proteção a russos étnicos”, saturação informacional via RT e Sputnik, e referendo politicamente coreografado — síntese exemplar da integração informacional-técnica e informacional-psicológica. Documentação ampla em Galeotti (2016), Renz (2016) e Rid (2020).

Interferência na eleição estadunidense de 2016. Operação multivetorial conduzida por GRU (intrusões em DNC/DCCC, vazamentos via DCLeaks e WikiLeaks — atribuição APT28) e por Internet Research Agency (operação de mídia social com mais de 80 mil posts no Facebook alcançando 126 milhões de usuários, conforme dados disclosure 2017). O caso é descrito pelo Mueller Report (2019) e analisado por Rid (2020) como aplicação plena da doutrina em ambiente democrático ocidental, com integração entre componente técnico (hack) e componente psicológico (leak amplificado e operação de IRA).

Campanha “Doppelganger” (2022–presente). Operação de larga escala, atribuída a empresas afiliadas ao Estado russo (Structura National Technology, Social Design Agency), de criação massiva de sites clones falsificando veículos como Le Monde, Der Spiegel, The Guardian e Bild, com conteúdo desinformativo direcionado a opinião pública europeia em torno da guerra na Ucrânia. Documentada pelo EU DisinfoLab (2022–2024) e por relatórios da Meta e do Google. A escala industrial e a rotação rápida de domínios sinalizam capacidade institucional madura.

Operações de mídia estatal e proxies (2014–presente). RT, Sputnik, Channel One e o ecossistema de Telegram pró-Kremlin (canais como Voennyy Osvedomitel’, Rybar, Readovka) constituem infraestrutura permanente de difusão narrativa, instrumentalizada em todas as crises do período. O caso do envenenamento de Sergei Skripal (Salisbury, 2018) é paradigmático: a Rússia respondeu à atribuição britânica com produção sistemática de narrativas alternativas mutuamente incompatíveis, técnica analisada por Pomerantsev como saturação narrativa destinada não a convencer, mas a esgotar.


6. Implicações para o Contexto Brasileiro

O Brasil é alvo plausível, mas não prioritário, de operações russas no sentido estrito da doutrina aqui descrita. A exposição direta é moderada: o país não é membro da OTAN, não recebe assistência militar substantiva à Ucrânia, e mantém com Moscou relacionamento mediado pelo formato BRICS e por cooperação setorial (energia, fertilizantes, defesa pontual). Operações russas dirigidas ao Brasil tendem, assim, a operar em registros indiretos: instrumentalização da diplomacia brasileira em foros multilaterais, modulação do debate público brasileiro sobre a guerra na Ucrânia, e amplificação de narrativas convergentes com o multipolarismo retórico do governo brasileiro.

A presença mediática russa no Brasil é institucionalizada. Sputnik Brasil opera em português desde 2014, com redação dedicada e alcance digital relevante; RT em espanhol circula via redes sociais e via parceiros de mídia. A Operação Doppelganger, embora primariamente dirigida à Europa, teve componentes em português documentados por equipes de análise (NetLab/UFRJ, DFRLab). Em campanhas eleitorais brasileiras recentes (2018 e 2022), a presença de narrativas convergentes com vetores informacionais russos foi documentada pela CGI.br e por equipes de pesquisa universitárias, sem que a atribuição direta a operadores russos tenha sido, na maioria dos casos, conclusivamente estabelecida.

Do ponto de vista da capacidade de resposta nacional, o Brasil dispõe de arquitetura institucional fragmentada. O Comando de Defesa Cibernética (ComDCiber), vinculado ao Exército e operacional desde 2014, concentra-se em proteção de redes militares e em capacidade defensiva técnica, com mandato limitado em dimensão psicológico-informacional. A Agência Brasileira de Inteligência (ABIN) desenvolve produção analítica sobre operações de influência estrangeira, mas com restrições legais para atuação preventiva. O Tribunal Superior Eleitoral ampliou, entre 2022 e 2024, a capacidade de resposta a desinformação eleitoral, mas no recorte estritamente eleitoral. O Gabinete de Segurança Institucional coordena a Estratégia Nacional de Segurança Cibernética (2020) e a Política Nacional de Cibersegurança (Decreto nº 11.856/2023), com menção tangencial a operações de influência estrangeira.

As lacunas doutrinárias são significativas. Não há, no marco regulatório brasileiro, instrumento equivalente ao Foreign Information Manipulation and Interference (FIMI) framework da União Europeia, nem ao Foreign Agents Registration Act (FARA) estadunidense — ainda que este último seja crescentemente criticado em sua aplicação. A literatura acadêmica brasileira sobre doutrina russa é restrita; produções como as do NEGISC, do GEPSI/IREL/UnB e de centros como o IPRI/FUNAG ainda têm penetração limitada no ciclo de tomada de decisão. A formação militar brasileira incorpora, em graus variáveis, os conceitos de operações de informação (Manual de Campanha EB20-MC-10.213, 2014), mas o quadro específico da doutrina russa é tratado de modo descritivo, não analítico-doutrinário.

Casos documentados na América Latina incluem, além do já referido componente da campanha Doppelganger, operações documentadas pelo Stanford Internet Observatory em torno da crise venezuelana (2019–2020), com amplificação RT/Sputnik de narrativas pró-Maduro e contra a oposição; e operações associadas à mediação russa em torno do acordo nicaraguense de 2022 sobre presença militar russa. A janela aberta pelo conflito ucraniano elevou a saliência regional do vocabulário russo, sem que tenha sido seguida, no Brasil, de elaboração doutrinária autóctone proporcional.


7. Ver Também


8. Referências

BARTLES, Charles K. Getting Gerasimov right. Military Review, Fort Leavenworth, v. 96, n. 1, p. 30-38, jan./fev. 2016.

GALEOTTI, Mark. Hybrid War or Gibridnaya Voyna? Getting Russia’s Non-Linear Military Challenge Right. Prague: EUROPEUM Institute for European Policy, 2016.

GALEOTTI, Mark. I’m Sorry for Creating the ‘Gerasimov Doctrine’. Foreign Policy, Washington, 5 mar. 2018.

GERASIMOV, Valery. The Value of Science Is in the Foresight: New Challenges Demand Rethinking the Forms and Methods of Carrying out Combat Operations. Military Review, traduzido por Robert Coalson, Fort Leavenworth, jan./fev. 2016. Original publicado em Voenno-Promyshlennyy Kur’yer, n. 8 (476), 27 fev. 2013.

RENZ, Bettina. Russia and ‘hybrid warfare’. Contemporary Politics, London, v. 22, n. 3, p. 283-300, 2016.

RID, Thomas. Active Measures: The Secret History of Disinformation and Political Warfare. Nova York: Farrar, Straus and Giroux, 2020.

THOMAS, Timothy L. Russia’s reflexive control theory and the military. Journal of Slavic Military Studies, London, v. 17, n. 2, p. 237-256, 2004.

THOMAS, Timothy L. Recasting the Red Star: Russia Forges Tradition and Technology Through Toughness. Fort Leavenworth: Foreign Military Studies Office, 2011.


Verbete submetido ao NEGISC — Núcleo de Estudos em Guerra Informacional e Segurança Cognitiva / GEPSI / IREL / UnB. Licença CC BY-SA 4.0.