As operações russas de guerra informacional contra a Ucrânia, desencadeadas em escala visível desde a anexação da Crimeia em fevereiro–março de 2014 e intensificadas com a invasão em larga escala iniciada em 24 de fevereiro de 2022, constituem o caso empírico mais documentado e analiticamente denso de guerra informacional do início do século XXI, articulando maskirovka operacional, controle reflexivo estratégico, desinformação em larga escala e operações cibernéticas convergentes — fornecendo ao campo de estudos um laboratório de validação e refinamento doutrinário em tempo real.
1. Definição e Escopo do Caso
O caso ucraniano deve ser entendido analiticamente em duas camadas sobrepostas. A primeira é a camada doutrinária: a guerra na Ucrânia é a aplicação contemporânea mais visível e sistemática da doutrina russa de guerra informacional (informatsionnoye protivoborstvo) — em que o ambiente informacional não é apenas instrumento auxiliar de operações cinéticas, mas teatro principal e contínuo de competição estratégica, conforme reformulado por documentos doutrinários russos (Doutrina de Segurança da Informação de 2000 e 2016; doutrina militar de 2014) e operacionalizado em campo. A segunda é a camada empírica: trata-se do conflito sobre o qual existe o maior corpus de evidências públicas — relatórios governamentais (NATO, EU, governo ucraniano, governo neerlandês via JIT), investigações OSINT (Bellingcat, Conflict Intelligence Team, Centre for Information Resilience), telemetria de plataformas privadas (Meta, X/Twitter, Google, Microsoft MSTIC), e acervos acadêmicos consolidados (síntese a partir de Renz, 2016; Rid, 2020; Galeotti, 2016; NATO StratCom COE, 2015).
O escopo deste verbete cobre dois períodos analíticos distintos, ainda que conectados por continuidade doutrinária. O primeiro é o período 2014–2021: anexação da Crimeia, conflito de baixa intensidade no Donbass, derrubada do voo MH17, e operações sustentadas de pressão informacional sobre a Ucrânia, a UE e a OTAN. O segundo é o período 2022–presente: invasão em larga escala iniciada em 24 de fevereiro de 2022, batalha narrativa global em torno da legitimidade da invasão, e a primeira guerra interestatal de larga escala conduzida sob condições de saturação informacional digital, transmissão satelital comercial em tempo real (Starlink) e participação ativa de grandes empresas de tecnologia ocidentais como atores informacionais.
Os atores institucionais russos envolvidos, conforme documentado por relatórios públicos e atribuições governamentais, incluem o GRU (Direção Principal de Inteligência do Estado-Maior, com destaque para as unidades 26165 — APT28/Fancy Bear — e 74455 — Sandworm), o FSB (Serviço Federal de Segurança), o SVR (Serviço de Inteligência Externa, ligado ao APT29/Cozy Bear), a Internet Research Agency (IRA) de São Petersburgo (ligada ao falecido Yevgeny Prigozhin), as redes de mídia estatal RT (anteriormente Russia Today) e Sputnik, e múltiplas estruturas paramilitares e comerciais (Wagner/Prigozhin antes de junho de 2023; rede “Doppelganger” identificada por relatórios franceses e da Meta).
2. Contexto Histórico e Antecedentes
A genealogia do caso ucraniano não pode ser compreendida sem três antecedentes estruturais. O primeiro é a continuidade soviética: a tradição russa de aktivnyye meropriyatiya (medidas ativas), reconstruída por Rid (2020) em arco que vai dos anos 1920 — operação “Trust” — ao auge da Guerra Fria, fornece o repertório técnico-doutrinário herdado pelos serviços russos pós-1991. As práticas de fabricação de documentos, plantio em mídia ocidental, criação de organizações de fachada, e cultivo de agentes de influência são reativadas e digitalmente atualizadas a partir do início dos anos 2000.
O segundo é a virada de 2007–2008: os ataques cibernéticos contra a Estônia (abril de 2007, no contexto da retirada do “Soldado de Bronze”) e a guerra russo-georgiana de agosto de 2008 são amplamente reconhecidos como pontos de inflexão em que se evidenciou, para analistas ocidentais e para a própria Rússia, a centralidade do componente informacional-cibernético em conflitos interestatais (leitura consolidada em NATO StratCom COE, 2015; Galeotti, 2016). O documento de Valery Gerasimov de 2013 — frequentemente referido como “Doutrina Gerasimov”, embora Galeotti (2016) e outros analistas alertem que se trata de descrição de ameaças percebidas, não de doutrina ofensiva codificada — sintetiza essa virada ao postular que conflitos contemporâneos são prioritariamente não-militares na razão de 4 para 1.
O terceiro é a especificidade da relação russo-ucraniana: a Ucrânia foi laboratório de operações informacionais russas desde, pelo menos, a Revolução Laranja de 2004 (campanha contra Viktor Yushchenko, envenenamento por dioxina cuja atribuição permanece formalmente em aberto). O período 2010–2014, sob a presidência de Viktor Yanukovych, viu integração progressiva da Ucrânia à esfera informacional russa, interrompida pela revolução do Euromaidan (novembro de 2013 – fevereiro de 2014). A reação russa à perda do alinhamento ucraniano é o gatilho imediato do caso aqui examinado.
3. Cronologia e Operações Documentadas
3.1 Período 2014–2021: Crimeia, Donbass, MH17
Fevereiro–março de 2014 — Anexação da Crimeia. Tropas russas sem insígnias — os “homens verdezinhos” (zelyonye chelovechki) — ocupam edifícios governamentais e bases militares na Crimeia entre 27 de fevereiro e início de março de 2014 (confirmado por relatórios da OSCE; admissão posterior por Vladimir Putin em entrevista ao documentário “Crimea: A Caminho da Pátria”, abril de 2015). A operação é exemplar de maskirovka contemporânea: combinação de negação plausível, ambiguidade jurídica e fato consumado, sob cobertura de campanha narrativa que apresentou a presença militar como manifestação espontânea de “autodefesa” russófona (Renz, 2016).
O referendo da Crimeia de 16 de março de 2014 é conduzido sob ocupação militar, com perguntas formuladas para excluir a opção de manutenção do status quo, e com taxa de comparecimento e resultados que organismos internacionais consideraram não verificáveis (Resolução 68/262 da Assembleia Geral da ONU, 27 de março de 2014, declara o referendo inválido por 100 votos a favor, 11 contra, 58 abstenções). A campanha informacional que precede e acompanha o evento mobiliza acusações de que o governo pós-Maidan em Kiev seria “fascista”, “neonazista” e ameaça existencial a populações russófonas — narrativa difundida em escala saturada por RT, Sputnik, mídia estatal russa doméstica e redes em plataformas sociais (documentado por NATO StratCom COE, 2015; East StratCom Task Force, 2015–).
Abril de 2014 em diante — Donbass. O conflito nas oblasts de Donetsk e Luhansk combina infiltração de forças russas e proxies locais com guerra informacional sustentada. A narrativa de “guerra civil ucraniana” — que apresenta o conflito como interno à Ucrânia, e não como agressão russa — é o eixo central da campanha externa russa do período (Galeotti, 2016).
17 de julho de 2014 — Voo MH17. O voo MH17 da Malaysia Airlines, com 298 ocupantes (predominantemente neerlandeses), é derrubado sobre o leste da Ucrânia. A investigação conduzida pelo Joint Investigation Team (JIT) — composto por Países Baixos, Austrália, Bélgica, Malásia e Ucrânia — conclui formalmente em 2016 que a aeronave foi atingida por míssil Buk 9M38 disparado a partir de campo na localidade de Pervomaisk, em território controlado por separatistas, e em 2018 atribui o sistema Buk à 53ª Brigada de Mísseis Antiaéreos das Forças Armadas Russas, baseada em Kursk (JIT, comunicados oficiais de 28 de setembro de 2016 e 24 de maio de 2018). Em novembro de 2022, tribunal neerlandês condena à revelia três réus — dois cidadãos russos (Igor Girkin e Sergey Dubinskiy) e um ucraniano (Leonid Kharchenko) — por assassinato; Oleg Pulatov é absolvido (Sentença do Tribunal Distrital de Haia, 17 de novembro de 2022).
A investigação Bellingcat sobre MH17, conduzida em paralelo e em diálogo com o JIT, é caso fundador da OSINT contemporânea: reconstrução do trajeto do Buk via geolocalização de fotos e vídeos em redes sociais russas (VKontakte, Twitter), identificação de unidades militares por insígnias e equipamentos visíveis, e atribuição com nomes de oficiais responsáveis (BELLINGCAT, 2017). A campanha de contranarrativa russa em torno do MH17 — produzindo sucessivas hipóteses alternativas mutuamente incompatíveis (caça ucraniano Su-25; míssil ar-ar; míssil Buk ucraniano; provocação da CIA) — é caso paradigmático da técnica de “firehose of falsehood” identificada por Paul e Matthews (RAND, 2016) e funcionalmente análoga ao controle reflexivo aplicado ao espaço cognitivo internacional.
2015–2021. O período é caracterizado por: operações cibernéticas contra infraestrutura ucraniana (apagões coordenados de dezembro de 2015 e dezembro de 2016, atribuídos ao Sandworm/Unidade 74455 do GRU pelo Departamento de Justiça dos EUA em outubro de 2020); o ataque NotPetya de junho de 2017 (originado em atualização comprometida do software contábil ucraniano M.E.Doc, com transbordo global e prejuízos estimados em mais de US$ 10 bilhões — atribuído ao GRU por governos dos EUA, Reino Unido, Austrália e outros em fevereiro de 2018); e campanhas sustentadas de desinformação documentadas pela East StratCom Task Force da EEAS (mais de 14 mil casos registrados em base euvsdisinfo.eu entre 2015 e 2023).
3.2 Período 2022–presente: invasão em larga escala
24 de fevereiro de 2022 — invasão. O discurso presidencial russo que precede a operação combina três núcleos narrativos: “desnazificação” da Ucrânia, “desmilitarização” como prevenção a ameaça existencial, e proteção a populações russófonas no Donbass — três eixos que estruturam a campanha informacional subsequente para audiências domésticas e externas (discurso de Vladimir Putin de 24 de fevereiro de 2022, transcrição oficial em kremlin.ru).
Primeiros dias — batalha informacional inicial. Em 16 de março de 2022, circula em plataformas sociais e em site invadido da emissora ucraniana Ukraine 24 um deepfake de Volodymyr Zelensky aparentemente anunciando rendição (confirmado por Meta, X/Twitter e pelo próprio Zelensky em vídeo de resposta; análise técnica em Twomey et al., 2023). O artefato é tecnicamente rudimentar (sincronia labial deficiente, iluminação inconsistente) e é desmascarado em horas, mas marca o uso operacional de deepfakes em conflito interestatal ativo.
A resposta ucraniana é caso de estudo em si: o presidente Zelensky publica vídeo selfie noturno na Bankova (sede da presidência) demonstrando presença em Kiev — operação de transparência estratégica que inverte a tradicional opacidade defensiva. O uso massivo do Telegram por canais ucranianos oficiais (Estado-Maior, Ministério da Defesa, governadores regionais) institui o canal como infraestrutura informacional primária do conflito, com transbordo simultâneo para audiências russas via canais em russo (documentado em múltiplos relatórios do Centre for Information Resilience, 2022–2024).
Campanhas narrativas sustentadas (2022–presente). O dispositivo informacional russo articula múltiplas linhas de mensagem direcionadas a audiências distintas:
- Para a audiência doméstica russa, a operação é “operação militar especial” (formulação juridicamente protegida pela lei federal de 4 de março de 2022, com penas de até 15 anos por divulgação de “informação falsa” sobre as forças armadas) (Lei Federal nº 32-FZ, 4 de março de 2022).
- Para audiências do Sul Global (África, América Latina, partes da Ásia), as linhas dominantes mobilizam crítica anti-colonial, oposição à “ordem unipolar” ocidental, e atribuição da crise alimentar e energética às sanções, não à invasão (Microsoft Threat Analysis Center, “Iran turning to cyber-enabled influence operations for greater effect”, 2023; análises do Africa Center for Strategic Studies, 2022–2024).
- Para audiências ocidentais, opera-se em registro de fadiga de guerra, custos econômicos das sanções, e narrativas de provocação da OTAN como causa do conflito.
- A narrativa de “biolaboratórios” financiados pelos EUA na Ucrânia, ativada em março de 2022, é amplificada por RT, Sputnik, embaixadas russas e Ministério da Defesa russo, com transbordo notável para audiências de direita alternativa nos EUA (atribuição por EU DisinfoLab, 2022; análise técnica em RAND, 2022).
Operação Doppelganger. Identificada por investigação coordenada da Meta (agosto de 2022), do governo francês (relatório VIGINUM de junho de 2023) e da União Europeia, trata-se de operação de inautenticidade coordenada em larga escala que clona visualmente sites de veículos legítimos (Le Monde, Le Parisien, Der Spiegel, Bild, The Guardian, The Washington Post) em domínios typosquat para difundir conteúdo pró-Kremlin sob aparência de jornalismo ocidental, com amplificação por contas inautênticas em Facebook, X e Telegram (Meta, “Adversarial Threat Report”, trimestrais 2022–2024; VIGINUM, relatório de junho de 2023).
Atores privados ocidentais como atores informacionais. A guerra de 2022 é a primeira em que grandes empresas privadas ocidentais — Microsoft (via MSTIC, com defesa cibernética ativa e relatórios públicos), Google/Mandiant, Amazon (com migração emergencial de dados governamentais ucranianos para a nuvem), Starlink/SpaceX (com fornecimento de conectividade satelital, embora com episódios documentados de restrição de uso militar) e Meta (com decisões de moderação como permissão temporária de discurso violento contra forças russas em fronteiras específicas, março de 2022) — assumem papel infraestrutural e narrativo de magnitude historicamente inédita (documentado em série de relatórios da Microsoft sobre Ucrânia, 2022–2024; cobertura jornalística sistemática).
4. Técnicas e Capacidades Empregadas
As operações russas no caso ucraniano articulam, de forma integrada, repertório técnico-doutrinário cuja análise pode ser organizada em cinco famílias.
(1) Maskirovka e ambiguidade ofensiva. Aplicada paradigmaticamente na operação da Crimeia em 2014: desinformação sobre identidade das forças, negação plausível mantida até o fato consumado, e exploração da janela decisória adversária. O esquema é replicado em escala doutrinária em múltiplos pontos do conflito.
(2) Controle reflexivo estratégico. Modelagem da percepção adversária — particularmente das chancelarias europeias, da opinião pública alemã quanto à dependência energética, e da percepção do Sul Global quanto à legitimidade da agenda ocidental — para induzir decisões funcionais aos objetivos russos sem que o adversário perceba estar sob influência.
(3) Desinformação em alto volume e baixa coerência (“firehose of falsehood”). Inundação do espaço informacional com narrativas múltiplas, mutuamente inconsistentes, distribuídas em alta velocidade e por múltiplos canais — técnica formalizada por Paul e Matthews (RAND, 2016) e validada empiricamente no caso MH17 e no caso “biolaboratórios”.
(4) Inautenticidade coordenada em plataformas sociais. Operações como Doppelganger e as redes da IRA documentadas em relatórios trimestrais da Meta de 2017 em diante constituem aplicação industrial da técnica, com escala que excede capacidade de moderação humana e demanda detecção algorítmica.
(5) Convergência ciber-cinético-informacional. Apagões coordenados (2015, 2016), NotPetya (2017), wipers contra infraestrutura ucraniana em fevereiro de 2022 (HermeticWiper, IsaacWiper, WhisperGate) operam simultaneamente como atos cinéticos (destruição), atos cognitivos (sinalização de capacidade) e atos narrativos (demonstração de vulnerabilidade ucraniana) (síntese a partir de relatórios da ESET e da Microsoft MSTIC, 2022).
5. Atribuição e Evidências
O caso ucraniano é, em termos de análise de atribuição, particularmente rico — combinando atribuições governamentais formais, atribuições judiciais, atribuições corporativas (telemetria de plataformas) e atribuições OSINT independentes.
Atribuições judiciais formais. A sentença do Tribunal Distrital de Haia de novembro de 2022 sobre o MH17 é o único caso interestatal contemporâneo de condenação judicial individual por ato de guerra atribuído a Estado-membro permanente do Conselho de Segurança da ONU. O Tribunal Penal Internacional emitiu, em 17 de março de 2023, mandado de prisão contra Vladimir Putin e Maria Lvova-Belova pela transferência ilegal de crianças ucranianas — caso em que o componente informacional (campanha midiática russa apresentando as transferências como “evacuação humanitária”) é juridicamente relevante (TPI, comunicado oficial de 17 de março de 2023).
Atribuições governamentais cibernéticas. O Departamento de Justiça dos EUA, em outubro de 2020, indicia seis oficiais do GRU (Unidade 74455/Sandworm) por NotPetya, ataques contra a rede elétrica ucraniana e outros (indictment público, U.S. V. Andrienko et al.). Reino Unido, Canadá, Austrália, Nova Zelândia e UE produziram atribuições convergentes em 2022–2024 sobre operações cibernéticas e informacionais ligadas ao GRU e à IRA.
Atribuições OSINT. Bellingcat (Crimeia, MH17, identificação de oficiais russos do FSB em casos Skripal e Navalny — este último não é caso ucraniano mas integra o ecossistema operacional), Conflict Intelligence Team, InformNapalm, Centre for Information Resilience e DFRLab (Atlantic Council) produziram corpus extensivo de atribuições verificáveis sobre operações específicas no teatro ucraniano (publicações em bellingcat.com, citeam.org, informnapalm.org, info-res.org e dfrlab.org, 2014–2024).
Gap — limites da atribuição pública. Permanecem com atribuição contestada ou incompleta: a autoria intelectual da explosão dos gasodutos Nord Stream 1 e 2 em 26 de setembro de 2022 (investigações sueca, dinamarquesa e alemã encerradas sem conclusão pública conclusiva até início de 2024); a cadeia de comando exata de várias operações da IRA pós-morte de Prigozhin (agosto de 2023); a escala real e a eficácia mensurável das operações Doppelganger junto a audiências-alvo específicas. Para análise crítica do estado da atribuição, ver verbete específico.
6. Implicações para o Contexto Brasileiro
O caso ucraniano oferece quatro lições estruturais ao Brasil que excedem a posição diplomática brasileira específica no conflito.
Primeiro, a centralidade da resiliência institucional. A capacidade ucraniana de manter funcionamento estatal, comunicações governamentais coerentes, e legitimidade narrativa interna durante guerra de larga escala depende de pré-condições institucionais — quadros técnicos qualificados, doutrina de comunicação estratégica de Estado, redundância infraestrutural e cultura cívica de alfabetização midiática — cuja construção precede o conflito. A relevância para o Brasil é direta: o investimento em resiliência informacional é função de segurança nacional, não suplemento de política cultural.
Segundo, a exposição brasileira ao ecossistema RT em espanhol e português. A RT en Español operou no Brasil sem restrições até a invasão de 2022 e, mesmo após restrições europeias, mantém presença em redes sociais e parcerias com veículos latino-americanos. **Atualização — ** mapeamento sistemático e atualizado da penetração de conteúdo derivado de RT/Sputnik em redes informacionais brasileiras (WhatsApp, Telegram, YouTube em português) é objeto de produção acadêmica incipiente e demanda agenda de pesquisa específica.
Terceiro, a relevância das narrativas dirigidas ao Sul Global. As linhas russas dirigidas a audiências latino-americanas — críticas à “ordem unipolar”, atribuição à OTAN da causa do conflito, equivalência moral entre as partes — encontram solo cognitivo previamente preparado por décadas de tensão com a política externa estadunidense. O Brasil é audiência-alvo explícita dessas operações, e o monitoramento da circulação dessas narrativas em ambiente informacional doméstico é tarefa empírica relevante para o NEGISC e para o campo.
Quarto, o caso como referência metodológica. O conjunto de práticas OSINT, de análise de plataformas e de análise narrativa desenvolvido sobre o caso ucraniano constitui repertório técnico transferível para o estudo de campanhas hostis em ambiente brasileiro — particularmente em ciclos eleitorais e em crises de legitimidade institucional. Ver Interferência Eleitoral no Brasil.
7. Ver Também
- Doutrina Russa de Guerra Informacional
- Maskirovka
- Controle Reflexivo
- Análise de Atribuição
- Inautenticidade Coordenada (CIB)
- Desinformação
8. Referências
BELLINGCAT INVESTIGATION TEAM. MH17 — The Open Source Investigation, Three Years Later. Bellingcat, 2017. Disponível em: https://www.bellingcat.com. Acesso em: 16 maio 2026.
EUROPEAN EXTERNAL ACTION SERVICE (EEAS). East StratCom Task Force — Disinformation Review. Brussels: EEAS, 2015–2023. Disponível em: https://euvsdisinfo.eu. Acesso em: 16 maio 2026.
GALEOTTI, Mark. Hybrid War or Gibridnaya Voyna? Getting Russia’s Non-Linear Military Challenge Right. Praga: Mayak Intelligence/EUROPEUM, 2016.
JOINT INVESTIGATION TEAM (JIT). MH17 — Criminal Investigation. Relatórios e comunicados públicos. Países Baixos: JIT/Openbaar Ministerie, 2016–2022. Disponível em: https://www.prosecutionservice.nl. Acesso em: 16 maio 2026.
NATO STRATEGIC COMMUNICATIONS CENTRE OF EXCELLENCE. Analysis of Russia’s Information Campaign against Ukraine. Riga: NATO StratCom COE, 2015.
PAUL, Christopher; MATTHEWS, Miriam. The Russian “Firehose of Falsehood” Propaganda Model. Santa Monica: RAND Corporation, 2016.
RENZ, Bettina. Russia and ‘hybrid warfare’. Contemporary Politics, v. 22, n. 3, p. 283-300, 2016.
RID, Thomas. Active Measures: The Secret History of Disinformation and Political Warfare. Nova York: Farrar, Straus and Giroux, 2020.
SNYDER, Timothy. The Road to Unfreedom: Russia, Europe, America. Nova York: Tim Duggan Books, 2018.
UCRÂNIA. Security Service of Ukraine (SSU) — relatórios públicos sobre operações informacionais russas, 2022–2024. Disponível em: https://ssu.gov.ua. Acesso em: 16 maio 2026.
Verbete submetido ao NEGISC — Núcleo de Estudos em Guerra Informacional e Segurança Cognitiva / GEPSI / IREL / UnB. Licença CC BY-SA 4.0.