Resumo
O artigo delimita conceitualmente o termo guerra cognitiva (cognitive warfare) e o distingue de categorias adjacentes — Operações de Informação, Operações Psicológicas, Guerra de Informação, propaganda e guerra psicológica — a partir de revisão sistemática da literatura doutrinária da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) entre 2020 e 2024, da produção acadêmica anglófona pós-2016 e da bibliografia brasileira sobre desordens informacionais. Argumenta-se que a guerra cognitiva constitui categoria analiticamente distinta porque desloca o objeto de contestação do ambiente informacional para o domínio cognitivo — entendido como o conjunto de processos de percepção, atenção, memória, crença, vontade e decisão — operando sobre indivíduos personalizados, e não apenas sobre públicos agregados. Sustenta-se que essa transição é viabilizada por três deslocamentos tecnológicos convergentes: amplificação algorítmica, mídia sintética e modelos generativos de linguagem. Examinam-se as vulnerabilidades estruturais brasileiras — penetração de aplicativos de mensageria, ciclos eleitorais de 2018 e 2022, lacunas regulatórias e capacidade institucional limitada de avaliação de ameaças cognitivas. Conclui-se com proposta de sete prioridades de pesquisa para o campo brasileiro, articulando Relações Internacionais, ciência cognitiva e ciência social computacional, e posicionando o Núcleo de Estudos em Guerra Informacional e Segurança Cognitiva (NEGISC/IREL/UnB) como instância de coordenação acadêmica desse esforço.
1. Introdução
A consolidação da expressão guerra cognitiva no vocabulário estratégico ocidental — proposta entre 2020 e 2022, no âmbito do Innovation Hub do Comando Aliado de Transformação da OTAN e da Science and Technology Organization, como candidato a sexto domínio operacional, ainda que sem declaração formal pelo Conselho do Atlântico Norte — coincide com transformações estruturais nas tecnologias de informação que tornaram operacionalmente viável aquilo que, em décadas anteriores, permanecia restrito a hipóteses teóricas ou a experimentos isolados de propaganda computacional. A passagem de campanhas de influência broadcast para vetores personalizados de microtargeting, mídia sintética e geração textual automatizada não representa apenas escalada quantitativa: instaura ruptura qualitativa no modo como Estados, atores não-estatais e empresas plataformizadas disputam crenças, vontades e processos decisórios de populações inteiras.
A literatura brasileira em Relações Internacionais, Comunicação e Inteligência tem acompanhado parcialmente esse debate, sobretudo a partir de estudos sobre desinformação eleitoral, conspiracionismo digital e plataformas de mensageria. Falta, contudo, esforço sistemático de delimitação conceitual que diferencie a guerra cognitiva de campos adjacentes consolidados — Information Operations (IO), Psychological Operations (PsyOps), Information Warfare (IW), propaganda e Guerra Psicológica — e que articule a discussão doutrinária da OTAN ao quadro analítico das vulnerabilidades brasileiras. Sem essa delimitação, persiste o risco de tratar o tema como variante terminológica de fenômenos já estudados, perdendo de vista o que há de especificamente novo: o deslocamento do objeto de ataque do ambiente informacional para a arquitetura cognitiva individual e coletiva.
O presente artigo busca preencher essa lacuna. Estrutura-se em seis seções, além desta introdução. A seção 2 fixa definição precisa de guerra cognitiva e a contrasta com conceitos vizinhos. A seção 3 reconstitui a trajetória doutrinária que conduziu da propaganda da Guerra Fria à proposição do sexto domínio. A seção 4 examina a dimensão tecnológica — em particular o papel da inteligência artificial generativa e da personalização algorítmica. A seção 5 analisa vulnerabilidades brasileiras e lacunas institucionais. A seção 6 propõe agenda de pesquisa com sete prioridades para o campo nacional. A seção 7 sintetiza os argumentos e situa o papel do NEGISC nessa agenda.
2. Definição e Escopo: O Que É Guerra Cognitiva
A definição operacional adotada neste artigo deriva, com adaptações, do documento seminal de François du Cluzel para o Innovation Hub do Comando Aliado de Transformação da OTAN (DU CLUZEL, 2020). Por guerra cognitiva entende-se o conjunto de atividades sincronizadas, intencionais e sustentadas — conduzidas por Estados, coalizões, atores não-estatais ou conglomerados privados — que visam degradar, manipular ou capturar processos cognitivos de indivíduos e populações-alvo, com o objetivo de alterar percepções, crenças, vontades e decisões em direções favoráveis aos interesses do ator atacante, sem necessariamente recorrer a meios cinéticos ou ao confronto militar convencional.
Três elementos distinguem essa definição. Primeiro, o objeto de ataque é o Domínio Cognitivo — entendido como camada de processos mentais, e não como ambiente informacional ou sistema técnico de comunicação. Segundo, o efeito visado é a alteração de estados internos (crenças, vontades, esquemas decisórios), e não apenas de comportamentos observáveis. Terceiro, a operação é estruturalmente interativa e adaptativa: utiliza ciclos de retroalimentação sobre dados comportamentais para refinar continuamente vetores de influência, à diferença da propaganda clássica, que opera em modo unidirecional.
Allenby e Garreau (2017) cunharam a expressão weaponized narrative para descrever a instrumentalização sistemática de narrativas como arma estratégica capaz de minar adversários a um custo mínimo. A formulação é convergente com a de du Cluzel e fornece a ponte conceitual entre a tradição dos estudos narrativos em segurança (MAAN, 2015) e a doutrina emergente do sexto domínio. Maan (2015) já havia argumentado que narrativas funcionam como tecnologias de coordenação cognitiva, capazes de organizar percepção e ação coletiva — proposição que a guerra cognitiva radicaliza ao acoplar narrativas a vetores tecnológicos de personalização e disseminação algorítmica.
Cabe distinguir guerra cognitiva de cinco categorias adjacentes com as quais é frequentemente confundida.
Information Operations (IO) — conforme codificadas no manual norte-americano FM 3-13 (HEADQUARTERS, 2016) — designam o emprego integrado, em apoio a operações militares, de capacidades relacionadas à informação para influenciar, perturbar, corromper ou usurpar a tomada de decisão adversária. O alvo das IO é o ambiente informacional: fluxos, canais, sistemas e conteúdos. Guerra cognitiva opera em camada inferior — sobre a cognição que processa o ambiente informacional.
Psychological Operations (PsyOps) focalizam atitudes, motivação e comportamento de públicos estrangeiros selecionados, geralmente em apoio a objetivos militares específicos. O escopo é mais restrito que o da guerra cognitiva: dirige-se prioritariamente a moral e ação, não à estrutura epistêmica de crenças e processos decisórios sistêmicos.
Information Warfare (IW) — na formulação russa contemporânea, informatsionnoye protivoborstvo — abrange tanto a dimensão técnica (operações cibernéticas, ataques a infraestrutura informacional) quanto a dimensão psicológico-informacional, integrando-as em concepção doutrinária ampla (GALEOTTI, 2019). Guerra cognitiva é subconjunto especializado dessa categoria, focado no efeito cognitivo e abstraindo a camada técnica de infraestrutura.
Propaganda, na acepção clássica, designa comunicação persuasiva unidirecional, dirigida a públicos massivos, com objetivo de moldar opinião ou ação. Carece, por definição, do laço de retroalimentação personalizada e da granularidade individual que caracterizam a guerra cognitiva contemporânea.
Guerra Psicológica, categoria consolidada durante a Guerra Fria, antecedeu e prefigurou parte da agenda atual, mas opera com inventário tecnológico e modelo psicológico próprios da era broadcast — rádio, panfleto, cinema, televisão — e com modelo behaviorista de público homogêneo, hoje empiricamente superado.
A guerra cognitiva, portanto, não substitui essas categorias: subsume parte de seu escopo, mas se distingue pela articulação entre alvo cognitivo, vetor tecnológico personalizado e retroalimentação adaptativa contínua.
3. Desenvolvimento Doutrinário: Da Guerra Fria ao 6º Domínio
A trajetória doutrinária que culmina na proposição do sexto domínio no âmbito da OTAN comporta cinco inflexões maiores.
A primeira inflexão se inscreve na Guerra Fria. As active measures soviéticas — descritas em detalhe por Rid (2020) — combinaram falsificação documental, plantio de narrativas em imprensa periférica, fronts organizacionais e campanhas de longo prazo de degradação reputacional do adversário. A maquinaria correspondente do bloco ocidental, articulada pela Central Intelligence Agency e por programas como Radio Free Europe, mobilizou recursos comparáveis em sentido inverso. O paradigma dominante era de propaganda massiva, mediada por infraestrutura broadcast e impressa, operando ciclos de meses ou anos. A categoria analítica de referência, no léxico militar ocidental, era guerra psicológica.
A segunda inflexão ocorre na década de 1990, com a codificação das Information Operations norte-americanas. A Joint Publication 3-13 (1998) e o subsequente FM 3-13 (HEADQUARTERS, 2016) estabelecem o ambiente informacional como dimensão integrada do espaço de batalha, articulando guerra eletrônica, operações em redes computacionais, PsyOps, decepção militar e segurança operacional sob conceito unificado. A informação passa a ser tratada como recurso operacional sistêmico, e não apenas como veículo de propaganda.
A terceira inflexão se materializa entre 2014 e 2016, no rastro da anexação russa da Crimeia e da intervenção no leste ucraniano. A interpretação ocidental dos eventos — popularizada sob o rótulo impreciso de doutrina Gerasimov, a partir da tradução para o inglês do texto original de Valery Gerasimov publicado no Voenno-Promyshlennyy Kuryer em fevereiro de 2013 (GERASIMOV, 2016) — fixou a noção de Doutrina Russa de IW como modelo integrador de meios cinéticos e não-cinéticos, com ênfase na dimensão informacional-psicológica. Cabe registrar que a leitura corrente do texto como enunciação de uma doutrina ofensiva russa é objeto de contestação na literatura especializada: Galeotti (2019) e outros analistas têm sustentado que o artigo original descreve, em registro analítico-defensivo, o que Gerasimov interpreta como modus operandi ocidental observado na Primavera Árabe e em revoluções coloridas, não um receituário operacional próprio. O rótulo “doutrina Gerasimov”, portanto, captura função heurística no debate ocidental sem fidelidade estrita ao texto-fonte. Paul e Matthews (2016) descreveram o modelo russo como firehose of falsehood — caracterizado por volume elevado, multicanalidade, ausência de compromisso com consistência e ausência de compromisso com a verdade. Pomerantsev (2019) e Galeotti (2019) consolidaram a leitura de que o repertório russo articula propaganda, decepção, operações cibernéticas e mobilização de proxies em desenho estratégico coerente, ainda que tático-oportunista em sua execução.
A quarta inflexão é a institucionalização do domínio cognitivo no debate doutrinário aliado. O documento de du Cluzel (2020) para o Innovation Hub do Comando Aliado de Transformação introduz formalmente o termo cognitive warfare no vocabulário institucional da OTAN, propondo-o como candidato a sexto domínio operacional — somando-se a terra, mar, ar, espaço e ciberespaço. Importa frisar que se trata de proposição doutrinária originada em estruturas de transformação e pesquisa da Aliança, não de declaração formal pelo Conselho do Atlântico Norte: os cinco domínios oficialmente reconhecidos permanecem terra, mar, ar, espaço e ciberespaço. O argumento central é que a mente humana, individual e coletivamente considerada, tornou-se simultaneamente teatro e objetivo de operações, e que o ambiente informacional, embora necessário, é insuficiente como categoria analítica. Em 2022, o volume editado por Claverie e colaboradores (CLAVERIE et al., 2022), publicado pela Science and Technology Organization da OTAN, sistematiza a noção de cognitive dominance como objetivo doutrinário, articulando contribuições de ciência cognitiva, ciência de dados, psicologia social e estudos estratégicos.
A quinta inflexão, contemporânea e em curso, é a apropriação da matriz conceitual chinesa. A doutrina das Três Guerras (三种战法, sānzhǒng zhànfǎ) — composta pela guerra psicológica (心理战, xīnlǐzhàn), pela guerra da opinião pública (舆论战, yúlùnzhàn) e pela guerra jurídica (法律战, fǎlǜzhàn) — codificada no Regulamento de Trabalho Político do Exército Popular de Libertação (中国人民解放军政治工作条例) revisado em 2003 pelo Comitê Central do PCC e pela Comissão Militar Central, antecipou conceitualmente parte da agenda da guerra cognitiva ocidental. A literatura ocidental tem progressivamente reconhecido a convergência funcional entre as Três Guerras e a noção de cognitive warfare, mantendo distinções importantes sobre arquitetura institucional, regime político e integração com instrumentos econômicos.
O movimento agregado dessas cinco inflexões pode ser sintetizado como deslocamento do alvo: da população (broadcast, Guerra Fria) para o ambiente informacional (IO, anos 1990) e finalmente para o indivíduo personalizado (guerra cognitiva, 2020 em diante). Esse último deslocamento é inviável sem a infraestrutura tecnológica examinada na seção seguinte.
4. A Dimensão Tecnológica: IA e a Personalização da Guerra Cognitiva
A passagem da propaganda broadcast à guerra cognitiva contemporânea é tecnologicamente condicionada. Cinco vetores, articulados, configuram a infraestrutura material que torna o sexto domínio operacionalmente viável.
O primeiro vetor é a amplificação algorítmica. Plataformas digitais organizam visibilidade de conteúdo segundo lógicas otimizadas para engajamento, com efeitos colaterais bem documentados sobre a circulação de informação. Vosoughi, Roy e Aral (2018) demonstraram empiricamente que conteúdos falsos circulam, em média, mais rápido, mais longe e mais profundamente que conteúdos verdadeiros — fenômeno atribuível em parte à arquitetura de incentivos algorítmicos e em parte à própria estrutura psicológica de processamento de novidade e indignação. Pariser (2011) e Sunstein (2017) elaboraram, respectivamente, as noções de filter bubble e de fragmentação deliberativa, sustentando que a personalização algorítmica reduz exposição a perspectivas divergentes e cria condições estruturais para polarização. O Algoritmo torna-se, nesse quadro, multiplicador de força para qualquer operação cognitiva que saiba modular seus parâmetros — engajamento, sentimento, novidade.
O segundo vetor é a mídia sintética. Deepfakes audiovisuais, vozes clonadas e imagens fotorrealistas geradas por modelos de difusão atacam o pressuposto cognitivo mais elementar do processamento perceptivo: a confiança no testemunho sensorial mediado. O efeito relevante, do ponto de vista da guerra cognitiva, não se limita ao impacto pontual de cada falsificação. Inscreve-se em fenômeno mais profundo — o dividendo do mentiroso — pelo qual a mera existência tecnológica de mídia sintética convincente permite o repúdio plausível de registros autênticos, corroendo a função epistêmica de evidência audiovisual em controvérsias públicas.
O terceiro vetor é o Microtargeting. A combinação de telemetria comportamental, traços psicométricos inferidos e modelos preditivos de receptividade permite ajustar mensagens a segmentos populacionais cada vez mais granulares — em escala que torna economicamente viável a personalização individual. Wardle e Derakhshan (2017) propõem o quadro information disorder — distinguindo misinformation, disinformation e malinformation — que, articulado ao microtargeting, fornece tipologia operacional para distinguir vetores e intenções.
O quarto vetor é a Propaganda Computacional assistida por modelos generativos. Modelos de linguagem de grande escala colapsam custos de produção textual em ordens de magnitude, viabilizam personalização discursiva em volume e suportam coordenação automatizada de redes de contas inautênticas. O regime industrial de produção de conteúdo de influência, antes restrito a Estados com fábricas de trolls dimensionadas (a Internet Research Agency russa como caso paradigmático), torna-se acessível a atores de menor envergadura — fragmentando o campo de ameaças e ampliando vetores de baixa atribuição.
O quinto vetor é o dilema de uso dual. As mesmas tecnologias mobilizadas para ofensa cognitiva — modelos generativos, microtargeting, análise de redes — viabilizam defesa cognitiva: Pré-bunking e Debunking automatizado, detecção de mídia sintética, monitoramento de redes coordenadas inautênticas, Segurança Cognitiva baseada em alfabetização midiática. O dilema não é tecnicamente solúvel: a corrida entre ofensa e defesa permanece estruturalmente assimétrica em favor da ofensa, dado que defender exige cobertura sistêmica e ofender requer apenas vetor pontual eficaz.
A comparação com a propaganda industrial é instrutiva. A propaganda do século XX operava em regime broadcast — mensagem única, audiência massiva, ciclo lento de retroalimentação via pesquisa de opinião. A guerra cognitiva contemporânea opera em regime personalizado — mensagens diferenciadas para subsegmentos cada vez menores, audiência potencialmente individual, ciclo de retroalimentação contínuo via telemetria comportamental. O deslocamento corresponde, em escala estratégica, à transição da artilharia de área para munição guiada de precisão: mesmo objetivo de efeito, infraestrutura tecnológica radicalmente distinta.
5. Implicações para o Brasil: Vulnerabilidades e Lacunas
O Brasil apresenta perfil de exposição estrutural particularmente elevado à guerra cognitiva, derivado da articulação entre alta penetração de mídias digitais, concentração informacional em aplicativos de mensageria criptografada, polarização política aguda e capacidade institucional limitada de resposta.
A primeira vulnerabilidade é arquitetural. O WhatsApp opera como infraestrutura primária de notícias para parcela majoritária da população brasileira, articulada ao Telegram em segmentos específicos. A combinação de criptografia ponta a ponta, grupos amplos e listas de transmissão produz superfície de ataque de difícil monitoramento e moderação — característica que distingue o caso brasileiro de cenários onde a circulação de conteúdo concentra-se em plataformas abertas com moderação centralizada. Para operações cognitivas, esse perfil oferece vetor de difusão de baixo custo, alta velocidade e baixa atribuição.
A segunda vulnerabilidade é histórico-empírica. Os ciclos eleitorais de 2018 e 2022 documentam, em escala brasileira, a operação sistemática de campanhas coordenadas de desinformação, articuladas a redes de financiamento difuso, infraestruturas de produção de conteúdo e mecanismos de amplificação em plataformas digitais. Ortellado e Ribeiro (2018) mapearam a genealogia do conservadorismo brasileiro nas redes sociais, identificando estruturas de coordenação que antecederam o ciclo eleitoral de 2018. Cesarino (2020) propôs leitura antropológica do processo, articulando ascensão das direitas digitais ao funcionamento performático de plataformas e ao fenômeno do conspiracionismo como modo de elaboração simbólica. Malini e Antoun (2013) anteciparam, em registro próximo, a análise das dinâmicas de ciberativismo e mobilização em rede que se converteriam, posteriormente, em substrato para operações cognitivas adversariais.
A terceira vulnerabilidade é institucional. A alfabetização midiática brasileira permanece estruturalmente baixa, refletindo lacunas históricas no sistema educacional. O quadro regulatório é parcial e fragmentado: o Projeto de Lei 2630/2020 (Lei das Fake News) permanece em tramitação com horizonte incerto; resoluções do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sobre propaganda eleitoral digital ampliaram-se entre 2022 e 2024, mas operam em horizonte temporal restrito ao período eleitoral; a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) regula o tratamento de dados pessoais sem dispor de instrumentos específicos para vetores cognitivos. A arquitetura regulatória, em suma, não foi desenhada para o problema da guerra cognitiva e cobre apenas parcialmente seus vetores.
A quarta vulnerabilidade é geopolítica. Diversos atores estatais demonstraram interesse operacional no Brasil. A Rússia mantém capacidade de monitoramento e produção de conteúdo dirigido ao espaço lusófono — observável pela atuação histórica de Sputnik Brasil em PT-BR, pela amplificação por RT en Español e Sputnik Mundo de narrativas alinhadas a candidaturas brasileiras nos ciclos eleitorais de 2018 e 2022, e por rastros documentados de coordenação de conteúdo no espaço lusófono mais amplo. A China conduz, no quadro de sua presença econômica via Iniciativa do Cinturão e Rota, esforço sistemático de gestão narrativa sobre cooperação tecnológica, atuação sanitária e posicionamento em organismos multilaterais. Atores domésticos — incluindo empreendedores políticos com infraestrutura própria de produção e distribuição de conteúdo — operam como vetores autônomos, por vezes em convergência tática com agendas externas.
A quinta vulnerabilidade é a capacidade limitada da inteligência institucional brasileira na avaliação de ameaças cognitivas. A Agência Brasileira de Inteligência (ABIN) possui mandato amplo, mas opera sob restrições legais relevantes — em especial o impedimento de produção de inteligência sobre cidadãos brasileiros para finalidades estranhas à proteção do Estado, fixado pela Lei nº 9.883/1999 e pelos limites constitucionais à atividade de inteligência interna — e dispõe de recursos analíticos e tecnológicos limitados na frente cognitiva, particularmente quando comparada a serviços homólogos europeus (UK Defending Democracy Taskforce, French VIGINUM, Swedish Psychological Defence Agency). A coordenação interinstitucional entre ABIN, Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas (EMCFA), Ministério da Defesa, Ministério da Justiça e Segurança Pública, Secretaria de Comunicação Social da Presidência (SECOM), TSE e Ministério Público é ad hoc e episódica, sem desenho permanente de governança para a ameaça cognitiva.
O conjunto dessas vulnerabilidades configura, em síntese, perfil de país altamente exposto a operações cognitivas tanto endógenas quanto exógenas, com capacidade institucional de resposta em estágio inicial de maturação. O cenário justifica esforço acadêmico organizado de produção de conhecimento aplicável — agenda explicitada na seção seguinte.
6. Agenda de Pesquisa: Prioridades para o Campo Brasileiro
A consolidação de campo nacional de estudos em guerra cognitiva e Segurança Cognitiva exige convergência de prioridades de pesquisa que articulem produção empírica, desenvolvimento conceitual e diálogo com o desenho institucional. Sugerem-se sete eixos prioritários.
1. Estudos de corpus sobre operações cognitivas domésticas (2018–2026). Reconstituição sistemática, com base em dados de plataformas, arquivos abertos e investigações judiciais já conhecidas, de campanhas coordenadas de desinformação nos ciclos eleitorais e crises políticas do período. A prioridade analítica é a identificação de padrões recorrentes — repertórios narrativos, estruturas de coordenação, vetores de financiamento, ciclos de amplificação — que permitam construir tipologia brasileira de operações cognitivas comparável a estudos de caso disponíveis para Estados Unidos, União Europeia e países pós-soviéticos.
2. Mapeamento de infraestrutura de influência estrangeira no Brasil. Identificação, por meio de análise de redes, monitoramento de meios e investigação de aquisições/parcerias, da presença operacional de atores estatais e quase-estatais estrangeiros no espaço informacional lusófono. Inclui inventário de meios estatais ou paraestatais que operam ou operaram em PT-BR, redes de think tanks e fundações com financiamento externo, presença de operadores comerciais de campanha digital com clientes governamentais estrangeiros.
3. Avaliação do quadro regulatório e institucional. Análise crítica das normas existentes — PL 2630, resoluções do TSE, LGPD, Marco Civil da Internet — sob a perspectiva da adequação a vetores cognitivos. Estudo comparado com legislações europeias (Digital Services Act) e medidas adotadas por democracias congêneres. Proposição de arquitetura regulatória capaz de endereçar microtargeting, mídia sintética, contas inautênticas coordenadas e financiamento opaco de operações de influência.
4. Desenvolvimento de métricas contextualizadas de resiliência cognitiva. Construção de instrumentos de mensuração de alfabetização midiática, exposição a vetores de desinformação e capacidade de discernimento crítico calibrados para a realidade brasileira — abrangendo diferenças regionais, faixas etárias, perfis de uso de mídia. Os instrumentos correntes, em sua maioria, foram desenvolvidos em contextos anglófonos e operam com pressupostos que não se generalizam ao caso brasileiro.
5. Postura cognitiva brasileira — capacidade ofensiva e defensiva. Avaliação franca, em chave de Relações Internacionais e Estudos Estratégicos, da posição brasileira no campo da guerra cognitiva. Discussão sobre o desenho institucional de uma capacidade defensiva nacional — incluindo o debate sobre criação de agência específica, modelo de cooperação interinstitucional, articulação com o sistema de inteligência. Discussão, em registro normativo e prudencial, sobre a questão da capacidade ofensiva e seus limites jurídicos, éticos e estratégicos.
6. Estudo comparado Brasil–América Latina. Inserção do caso brasileiro em quadro regional comparado, articulando experiências mexicana (ciclos eleitorais 2018, 2024), argentina (campanhas de 2023), colombiana (plebiscito de 2016 e ciclos subsequentes) e venezuelana (operações domésticas e diáspora). A escala regional permite distinguir vulnerabilidades estruturais comuns de especificidades nacionais e abre espaço para desenvolvimento de respostas cooperativas no âmbito da CELAC, Mercosul e Comunidade Sul-Americana.
7. Métodos interdisciplinares: RI, ciência cognitiva e ciência social computacional. Consolidação de comunidade metodológica que articule Relações Internacionais (análise de poder, doutrina, política externa), ciência cognitiva (modelos de processamento de informação, vieses, suscetibilidade), psicologia social (dinâmicas de grupo, identidade) e ciência social computacional (análise de redes, processamento de linguagem natural, modelagem de difusão). O campo da guerra cognitiva é, por definição, transdisciplinar: a fragmentação disciplinar é, ela própria, vulnerabilidade analítica.
Esses sete eixos não esgotam a agenda possível, mas oferecem ponto de partida sobre o qual o NEGISC propõe-se a articular esforços com pesquisadores e instituições parceiras.
7. Considerações Finais
Argumentou-se, ao longo do artigo, que a guerra cognitiva constitui categoria analiticamente distinta — não substituta — em relação a Operações de Informação, PsyOps, Information Warfare, propaganda e guerra psicológica. A distinção repousa no deslocamento do objeto de ataque, do ambiente informacional para o domínio cognitivo, e na infraestrutura tecnológica que torna esse deslocamento operacionalmente viável: amplificação algorítmica, mídia sintética, microtargeting, modelos generativos e arquitetura de retroalimentação personalizada contínua.
A reconstituição da trajetória doutrinária — das active measures da Guerra Fria à proposição do sexto domínio no âmbito da OTAN em 2020 e à sistematização de 2022 — evidencia que o conceito não é importação especulativa, mas codificação institucional de fenômeno operacional já em curso. As Três Guerras chinesas, a doutrina russa de IW e a literatura ocidental sobre weaponized narrative convergem, com inflexões doutrinárias próprias, para a centralidade da disputa cognitiva como dimensão estruturante do confronto contemporâneo entre Estados, atores não-estatais e atores plataformizados.
O Brasil é, simultaneamente, ator afetado e teatro privilegiado dessa dinâmica. A combinação de penetração de mensageria criptografada, fragilidades regulatórias, polarização aguda e capacidade institucional ainda em maturação configura perfil de exposição elevado. Os ciclos eleitorais de 2018 e 2022 não devem ser lidos como anomalias isoladas, mas como manifestações inaugurais de regime operacional persistente, no qual operações cognitivas — endógenas e exógenas — passaram a integrar permanentemente o espaço político-informacional nacional.
A guerra cognitiva, em síntese, não é ameaça futura cuja preparação possa ser adiada: é realidade operacional presente, cuja compreensão exige instituições acadêmicas dedicadas, interdisciplinaridade metodológica e produção sistemática de conhecimento aplicável. O Núcleo de Estudos em Guerra Informacional e Segurança Cognitiva (NEGISC), no quadro do GEPSI/IREL/UnB, propõe-se a contribuir para a consolidação desse campo no Brasil, articulando pesquisa, formação de quadros, diálogo institucional e produção de subsídios técnicos para o desenho de políticas públicas. A agenda apresentada neste artigo é convite aberto — a pesquisadores, instituições e formuladores — para esforço coletivo cuja urgência o cenário nacional e internacional já não permite minimizar.
Referências
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WARDLE, Claire; DERAKHSHAN, Hossein. Information Disorder: Toward an Interdisciplinary Framework for Research and Policy Making. Strasbourg: Council of Europe, 2017.
Ver também (NEGISC)
- Guerra Cognitiva (verbete glossário)
- Domínio Cognitivo
- Operações de Informação
- Guerra Psicológica
- Propaganda Computacional
- Deepfakes
- Microtargeting
- Doutrina Russa de IW
- Pré-bunking e Debunking
- Segurança Cognitiva
- Algoritmo
- Firehose of Falsehood
Artigo submetido ao NEGISC — Núcleo de Estudos em Guerra Informacional e Segurança Cognitiva / GEPSI / IREL / UnB. Licença CC BY-SA 4.0.