Conjunto de atividades hostis voltadas a explorar vulnerabilidades cognitivas humanas — individuais e coletivas — para modificar percepções, decisões e comportamentos de adversários, alvos e aliados, conceitualizada no âmbito da OTAN como candidata a sexto domínio operacional, ao lado de terrestre, marítimo, aéreo, espacial e cibernético.


Definição

Guerra cognitiva (cognitive warfare) é a categoria conceitual desenvolvida sobretudo no âmbito da OTAN — através do Innovation Hub (ACT, Allied Command Transformation) e do NATO StratCom COE — a partir do trabalho de François du Cluzel, Bernard Claverie e Hervé Le Guyader (Cognitive Warfare, 2020; Cognitive Warfare: An Attack on Truth and Thought, 2022). A formulação distingue-se de antecessoras (PsyOps, IW, operações de informação) por uma deslocação de objeto e de método.

Distinção 1 — Objeto: enquanto a guerra psicológica clássica e as PsyOps visam modificar comportamentos específicos do adversário em horizonte tático-operacional, a guerra cognitiva tem por objeto a própria cognição — os processos mentais pelos quais indivíduos e coletividades percebem, interpretam e decidem. Não se trata de fazer o adversário agir de tal ou qual maneira, mas de alterar como ele pensa.

Distinção 2 — Escopo: a guerra cognitiva integra ferramentas tradicionais de guerra informacional com aportes da neurociência, da ciência cognitiva, da psicologia comportamental, da IA e da propaganda computacional. Explora sistematicamente vieses cognitivos como vetor de ataque.

Distinção 3 — Domínio operacional: o relatório Cognitive Warfare do Innovation Hub do ACT (2020–2021) e documentos subsequentes propõem o domínio cognitivo como candidato a sexto domínio operacional, ao lado do terrestre, marítimo, aéreo, espacial e cibernético — proposição sem precedente na doutrina militar ocidental cuja formalização segue em debate entre os Estados-membros, sem declaração do Conselho do Atlântico Norte.

O conceito permanece em construção. Críticos (SINGER e BROOKING, 2018; POMERANTSEV, 2019) questionam se constitui domínio autônomo ou camada transversal aos demais; defensores (DU CLUZEL, 2020; NATO ACT, 2022) sustentam que a centralidade da cognição na competição estratégica contemporânea justifica a autonomia conceitual e doutrinária.


Uso e Contexto

A guerra cognitiva tornou-se eixo central da resposta da OTAN à competição estratégica com Rússia e China, e da análise sobre as operações de longo prazo do PCCh sob a doutrina das Três Guerras (psicológica, jurídica e da opinião pública). No léxico francês, o termo guerre cognitive aparece nas publicações do IHEDN e da École de Guerre. No léxico estadunidense, cognitive warfare coexiste — sem coincidir plenamente — com information warfare e political warfare.

No Brasil, a noção tem sido incorporada por publicações da Escola Superior de Guerra (ESG), do CEBRI e do próprio NEGISC, em diálogo crítico com a tradição francesa e a doutrina aliada.


Ver Também


Referências

DU CLUZEL, François. Cognitive Warfare. Norfolk: NATO Allied Command Transformation, Innovation Hub, 2020.

CLAVERIE, Bernard; DU CLUZEL, François. Cognitive Warfare: The Advent of the Concept of “Cognitics” in the Field of Warfare. Bordeaux: ENSC / NATO ACT, 2022.

SINGER, P. W.; BROOKING, Emerson T. LikeWar: The Weaponization of Social Media. Boston: Houghton Mifflin Harcourt, 2018.


Verbete submetido ao NEGISC — GEPSI / IREL / UnB. Licença CC BY-SA 4.0.