Psicoesfera é o “conjunto de valores, representações e discursos que orientam a ação social” (SANTOS, 1996, p. 156) — a camada imaterial do território que, no capitalismo informacional, converte-se em infraestrutura estratégica e em campo disputado da guerra cognitiva.


1. Definição e Escopo

A psicoesfera é, na geografia de Milton Santos, o par conceitual da tecnoesfera: enquanto esta designa a base material e técnica do espaço — máquinas, infraestruturas, objetos técnicos —, a psicoesfera designa o conjunto de valores, representações, ideias e discursos que acompanham e orientam a ação social sobre esse suporte (SANTOS, 1996). A tecnoesfera é o hardware do território; a psicoesfera, sua camada de sentido. Nas sociedades do meio técnico-científico-informacional, o território deixa de ser apenas suporte material das relações sociais para tornar-se também “infraestrutura informacional e cognitiva” (CROCETTI, 2026, p. 3).

O escopo contemporâneo do conceito desloca-se de uma descrição sociológica da opinião para uma leitura estratégica. Na formulação de CROCETTI (2026), o território reticulado opera em três dimensões indissociáveis — material (cabos, data centers), funcional (algoritmos, fluxos) e imaterial (regimes de atenção, narrativas, captura cognitiva) — e é sobre a terceira que incide a disputa pela psicoesfera. Plataformas digitais, nessa leitura, não apenas mediam conteúdos: “selecionam, amplificam e suprimem narrativas segundo algoritmos proprietários opacos” (CROCETTI, 2026, p. 7), convertendo a psicoesfera em campo de batalha.

É preciso distinguir a psicoesfera de noções vizinhas. Ela não é equivalente ao domínio cognitivo doutrinário da OTAN — que demarca um terreno de operações a partir do vocabulário militar — nem à opinião pública em sentido sociológico estrito: a psicoesfera é a dimensão territorial da disputa cognitiva, a espacialização das representações, e não a soma dos estados mentais individuais. Distingue-se ainda do capitalismo de vigilância (ZUBOFF, 2019), que descreve o mecanismo econômico de extração da experiência, ao passo que a psicoesfera nomeia a superfície simbólica onde essa extração se torna disputa geopolítica.


2. Etimologia e Origem Conceitual

O conceito de psicoesfera é cunhagem de Milton Santos, formulada no âmbito de sua teoria do espaço geográfico. A fonte canônica é A natureza do espaço (1996), onde o par tecnoesfera/psicoesfera descreve a dupla face do meio técnico-científico-informacional; a literatura registra, contudo, uma oscilação de atribuição — textos citam ora SANTOS (1978), ora SANTOS (1996, p. 156) — que permanece sem resolução explícita (CROCETTI, 2026). O par conceitual insere-se na tradição da geografia crítica brasileira, herdeira da leitura materialista do espaço e do conceito de desenvolvimento desigual e combinado.

A extensão estratégica do conceito é recente e autoral. Zeno Soares Crocetti (2026), em preprint da geografia crítica, propõe a psicoesfera como chave de uma “geografia da guerra cognitiva”: no território reticulado do capitalismo informacional, a infraestrutura digital transforma a psicoesfera em campo estratégico de disputa geopolítica (CROCETTI, 2026, p. 3). O autor articula Santos ao aparato da dromologia de Paul Virilio (VIRILIO, 1996), à Espiral do Silêncio de Elisabeth Noelle-Neumann (1984) e à crítica das plataformas (ZUBOFF, 2019; HAN, 2018), cunhando os conceitos derivados de neuroterritorialização e cronoespiral do silêncio.


3. Desenvolvimento Histórico

A psicoesfera, como categoria descritiva, acompanha a própria história da técnica: toda formação socioespacial produz, junto a sua base material, um repertório de valores e discursos que a legitima. O que muda, a partir do meio técnico-científico-informacional (SANTOS, 1996), é a autonomização relativa dessa camada: a unicidade técnica e a convergência dos momentos produzem sincronização informacional global — uma só psicoesfera tendencial, em escala planetária — ao mesmo tempo em que, por releitura da lei do desenvolvimento desigual e combinado, essa sincronização convive com assimetrias estruturais profundas de infraestrutura, latência e capacidade narrativa entre centros e periferias (CROCETTI, 2026).

Três deslocamentos marcam a passagem para a leitura estratégica contemporânea. Primeiro, a algoritmização do consenso: a Janela de Overton — o espectro de ideias aceitáveis no debate público — e a Espiral do Silêncio são reinterpretadas como mecanismos algorítmicos, em que plataformas deslocam os limites do aceitável e silenciam vozes divergentes via shadowban e priorização algorítmica (CROCETTI, 2026; NOELLE-NEUMANN, 1984). Segundo, a temporalização da disputa: a aceleração informacional comprime a duração e automatiza a formação do consenso, intensificando a espiral do silêncio — síntese que Crocetti denomina “cronoespiral do silêncio”. Terceiro, a territorialização do cognitivo: a guerra cognitiva “não ocorre fora do território, mas no interior de sua própria arquitetura reticular” (CROCETTI, 2026, p. 25).


4. Debate Teórico

O debate em torno da psicoesfera como categoria estratégica é jovem e atravessado por três tensões.

A primeira é atributiva e de rigor documental. O texto de CROCETTI (2026) oscila entre SANTOS (1978) e SANTOS (1996, p. 156) como fonte do conceito, sem resolver a diferença; e, sendo um preprint não revisado por pares, suas afirmações empíricas — dados de latência, valores monetários, percentuais de queda de alcance — remetem, em parte, a autocitações ainda não publicadas em periódico indexado, exigindo verificação em fonte primária antes de uso substantivo.

A segunda tensão é teórico-política. Crocetti escreve de matriz marxista/anti-imperialista, trata a Lava Jato como lawfare que reconfigurou a psicoesfera nacional e critica nominalmente as Big Techs como “Leviatãs” que drenam valor do Sul Global (CROCETTI, 2026; HAN, 2018). Sua leitura contrasta frontalmente com a doutrina da OTAN: onde esta trata a guerra cognitiva como operação dirigida contra um adversário definido, a geografia crítica a trata como condição estrutural difusa do capitalismo informacional, sem adversário estatal específico.

A terceira tensão é de inserção no campo. O aparato de Crocetti é genuinamente original na literatura brasileira, mas paralelo, não dialógico: não cita nem discute as tradições doutrinárias que deram nome à guerra cognitiva (OTAN, Rússia, China), e sua única ponte explícita com os estudos estratégicos brasileiros é a etnografia da guerra híbrida de LEIRNER (2020). A questão em aberto é se a psicoesfera constitui intervenção autônoma no campo ou aplicação de vocabulário já estabelecido a um objeto — as plataformas — já bem descrito por Zuboff e Han.


5. Casos Documentados

Lava Jato e a reconfiguração da psicoesfera nacional. CROCETTI (2026) lê a Operação Lava Jato como lawfare que, via impeachment e prisão de lideranças, reconfigurou a psicoesfera brasileira — deslocando a Janela de Overton do debate público nacional. O caso ilustra, na chave do conceito, como disputas judiciais e midiáticas operam diretamente sobre a camada imaterial do território, reorganizando o espectro do aceitável.

Guerra de informação na Ucrânia (2022). O conflito russo-ucraniano documenta a psicoesfera como campo de disputa em tempo real: coletivos de jornalismo de código aberto, plataformas e canais de mensageria tornaram-se vetores concorrentes de representação do conflito — disputa cujas assimetrias de infraestrutura e narrativa reproduzem, na camada informacional, as assimetrias do próprio sistema mundial (CROCETTI, 2026).

Plataformas como “novos Leviatãs”. A operação quotidiana das plataformas — seleção, amplificação e supressão algorítmica de narrativas — constitui, na formulação de Crocetti, um poder pós-hobbesiano que opera não por coerção externa, mas por psicopolítica: exploração interna do desejo, da atenção e do afeto (HAN, 2018). O caso é paradigmático do deslocamento da disputa da tecnoesfera para a psicoesfera.


6. Implicações para o Contexto Brasileiro

O Brasil é, ao mesmo tempo, caso exemplar e laboratório do conceito. De um lado, a geografia crítica brasileira — de Milton Santos ao desenvolvimento desigual e combinado aplicado à infraestrutura digital — fornece o próprio vocabulário com que a psicoesfera é nomeada, conferindo à leitura brasileira um diferencial de autoralidade raro no campo, historicamente dominado pelo vocabulário doutrinário do Atlântico Norte. De outro, a experiência brasileira recente — das jornadas de 2013 à Lava Jato, das eleições de 2018 e 2022 aos eventos de 8 de janeiro de 2023 — é lida como evidência de que a disputa pela psicoesfera nacional não é hipótese acadêmica, mas processo em curso.

Para a política de defesa e segurança, a leitura territorial tem valor prático: ao situar a disputa cognitiva no interior da arquitetura reticular do território, ela desloca o foco da resposta — do monitoramento de conteúdos para a infraestrutura que os seleciona e amplifica. A ponte com os estudos estratégicos brasileiros já existe, via LEIRNER (2020), mas permanece subdesenvolvida: a integração da psicoesfera aos marcos doutrinários e regulatórios nacionais — da segurança cognitiva à regulação de plataformas — é agenda em construção, particularmente relevante diante do ciclo eleitoral de 2026.


7. Ver Também


8. Referências

CROCETTI, Zeno Soares. Psicoesfera e território reticulado (Janela de Overton, Espiral do Silêncio e a Geografia da Guerra Cognitiva). SciELO Preprints, 22 abr. 2026. Preprint (versão 1, não revisado por pares). DOI: 10.1590/SciELOPreprints.15546.

HAN, Byung-Chul. Psicopolítica: o neoliberalismo e as novas técnicas de poder. Tradução de Maurício Liesen. Belo Horizonte: Âyiné, 2018. (Original: 2014.)

LEIRNER, Piero C. O Brasil no espectro de uma guerra híbrida: militares, operações psicológicas e política em uma perspectiva etnográfica. 2. ed. São Paulo: Alameda, 2020.

NOELLE-NEUMANN, Elisabeth. The Spiral of Silence: public opinion, our social skin. Chicago: University of Chicago Press, 1984.

SANTOS, Milton. A natureza do espaço: técnica e tempo, razão e emoção. São Paulo: Hucitec, 1996.

VIRILIO, Paul. Velocidade e política. Tradução de Celso Mauro Paciornik. São Paulo: Estação Liberdade, 1996. (Original: Vitesse et politique: essai de dromologie. Paris: Galilée, 1977.)

ZUBOFF, Shoshana. The Age of Surveillance Capitalism: the fight for a human future at the new frontier of power. New York: PublicAffairs, 2019.


Verbete submetido ao NEGISC — Núcleo de Estudos em Guerra Informacional e Segurança Cognitiva / GEPSI / IREL / UnB. Licença CC BY-SA 4.0.