Modo de conduzir conflito que combina, de forma deliberada e sincronizada, capacidades militares convencionais, táticas irregulares, instrumentos cibernéticos, operações informacionais e atividades criminais ou econômicas hostis, com o objetivo de obter efeitos estratégicos abaixo do limiar de guerra declarada.

Definição

A guerra híbrida designa um modus operandi bélico — uma forma de fazer guerra — caracterizado pela fusão deliberada de modalidades de violência historicamente distintas: forças regulares + forças irregulares + ciberataques + operações de informação + coerção econômica + proxies criminais. O conceito foi articulado inicialmente por Frank Hoffman (2007) a partir da análise da campanha do Hezbollah contra Israel em 2006, e ganhou centralidade no léxico estratégico ocidental após a intervenção russa na Ucrânia em 2014 (anexação da Crimeia e desestabilização do Donbass).

Três características operacionais a distinguem da guerra convencional:

  1. Multivetorial: emprega simultaneamente instrumentos cinéticos e não cinéticos, militares e civis, abertos e clandestinos;
  2. Ambígua quanto à atribuição: opera abaixo do limiar de reconhecimento internacional como guerra, dificultando respostas coletivas previstas em tratados de defesa coletiva (Art. 5º da OTAN, p. ex.);
  3. Sincronizada sob direção estratégica única: a coordenação entre vetores diversos é precisamente o que diferencia a guerra híbrida da mera presença simultânea de fenômenos diversos em um teatro.

A distinção entre “guerra híbrida” e “ameaça híbrida” é fundamental e frequentemente colapsada no discurso público. Guerra híbrida descreve um modo de conduzir conflito, do ponto de vista do agressor; ameaça híbrida descreve o tipo de risco percebido, do ponto de vista do defensor. A primeira é categoria ofensiva-doutrinária; a segunda, categoria defensiva-analítica. Confundi-las leva a diagnósticos imprecisos e respostas inadequadas — a literatura mais cuidadosa (RENZ, 2016; CALISKAN, 2019) insiste nessa distinção.

Há ainda crítica acadêmica relevante (Mark Galeotti, Bettina Renz, Ofer Fridman) ao “hype” em torno do conceito, que tende a tratar como inovação tática russa o que é, em larga medida, prática soviética e mesmo czarista de longa duração (active measures / активные мероприятия).

Uso e Contexto

Adotado pela OTAN (Cúpula de Varsóvia, 2016), pela UE (EU Hybrid Toolbox) e por estratégias nacionais de defesa de diversos Estados-Membros. Na doutrina russa, o conceito correlato — e parcialmente fonte do debate ocidental — é a “guerra de nova geração” (GERASIMOV, 2013). Na doutrina chinesa, encontra paralelos nas Três Guerras (公共舆论战, 心理战, 法律战) e na “guerra irrestrita” (QIAO e WANG, 1999).

Ver Também

Referências

HOFFMAN, Frank G. Conflict in the 21st Century: The Rise of Hybrid Wars. Arlington: Potomac Institute for Policy Studies, 2007.

RENZ, Bettina. Russia and ‘hybrid warfare’. Contemporary Politics, v. 22, n. 3, p. 283–300, 2016.

FRIDMAN, Ofer. Russian ‘Hybrid Warfare’: Resurgence and Politicisation. London: Hurst & Co., 2018.


Verbete do Glossário NEGISC — Núcleo de Estudos em Guerra Informacional e Segurança Cognitiva / GEPSI / IREL / UnB. Licença CC BY-SA 4.0.