Combinação sincronizada de instrumentos militares e não militares — diplomáticos, econômicos, cibernéticos, informacionais, criminais — empregada por um ator estatal ou paraestatal para explorar vulnerabilidades de um adversário abaixo do limiar do conflito armado convencional.

Definição

Uma ameaça híbrida designa o emprego coordenado e deliberado, por um ator hostil, de múltiplos vetores de coerção — convencionais e não convencionais, militares e civis, abertos e clandestinos — com o objetivo de produzir efeitos estratégicos sem provocar uma resposta convencional plena. O conceito foi consolidado no léxico euro-atlântico a partir do European Centre of Excellence for Countering Hybrid Threats (Hybrid CoE, Helsinque, 2017) e da Estratégia Global da União Europeia (2016), em resposta direta à anexação russa da Crimeia (2014) e às campanhas subsequentes de interferência em processos democráticos ocidentais.

Os instrumentos típicos incluem: operações de informação e desinformação, ciberataques contra infraestrutura crítica, instrumentalização de fluxos migratórios, pressão energética, financiamento de atores políticos domésticos, lawfare, sabotagem econômica e emprego de proxies armados ou de companhias militares privadas. A caracterização “híbrida” não decorre do uso isolado de qualquer um desses instrumentos, mas da sua orquestração sincronizada sob uma intenção estratégica unificada.

É importante distinguir ameaça híbrida de guerra híbrida: a primeira descreve a natureza do risco percebido pelo lado defensivo; a segunda descreve um modo de conduzir conflito pelo lado ofensivo. A literatura jornalística e política colapsa frequentemente os dois termos, mas o uso analítico exige a distinção.

Uso e Contexto

O termo é empregado predominantemente na doutrina da OTAN, da União Europeia e dos Estados-Membros do Hybrid CoE como categoria de análise de risco para fins de planejamento defensivo e de resiliência nacional. Na Rússia, o conceito correlato é o de “guerra de nova geração” (GERASIMOV, 2013); na China, a “guerra irrestrita” (QIAO e WANG, 1999). No Brasil, a Política Nacional de Defesa (PND) e a Estratégia Nacional de Defesa (END) começam a incorporar elementos do vocabulário híbrido a partir de 2020, com foco em proteção de infraestrutura crítica e segurança cibernética.

Ver Também

Referências

HOFFMAN, Frank G. Conflict in the 21st Century: The Rise of Hybrid Wars. Arlington: Potomac Institute for Policy Studies, 2007.

HYBRID CoE. The Landscape of Hybrid Threats: A Conceptual Model. Helsinki: European Centre of Excellence for Countering Hybrid Threats / JRC, 2021.

WIGELL, Mikael. Hybrid interference as a wedge strategy: a theory of external interference in liberal democracy. International Affairs, v. 95, n. 2, p. 255–275, 2019.


Verbete do Glossário NEGISC — Núcleo de Estudos em Guerra Informacional e Segurança Cognitiva / GEPSI / IREL / UnB. Licença CC BY-SA 4.0.