Disseminação deliberada de conteúdo falso, enganoso ou descontextualizado com intenção de causar dano — político, econômico, reputacional ou social — distinguindo-se da mera informação errônea pela presença de intencionalidade hostil.
Definição
Desinformação designa, na conceituação consolidada por Claire Wardle e Hossein Derakhshan no relatório do Conselho da Europa Information Disorder (2017), uma das três categorias do “transtorno informacional”, caracterizada pela combinação de falsidade e intenção de causar dano:
- Misinformation (informação errônea): conteúdo falso compartilhado sem intenção de prejudicar (erro, equívoco, sátira mal interpretada);
- Disinformation (desinformação): conteúdo falso ou enganoso disseminado deliberadamente para causar dano;
- Malinformation: conteúdo verdadeiro, mas divulgado fora de contexto ou com intenção hostil (ex.: vazamento estratégico de dados privados reais).
A definição operacional exige, portanto, dois critérios cumulativos: (1) falsidade ou natureza enganosa do conteúdo (que pode ser fabricação total, manipulação parcial, descontextualização ou framing distorcido); e (2) intenção dolosa do disseminador inicial — não dos compartilhadores subsequentes, que tipicamente atuam de boa-fé. Essa distinção é metodologicamente crucial: a maior parte do tráfego de desinformação é movida por usuários de boa-fé, o que torna a contramedida baseada em punição individual ineficaz e inadequada.
A desinformação é o conteúdo veiculado; o CIB descreve o comportamento dos atores. Uma operação de influência sofisticada combina tipicamente ambos, mas analiticamente são vetores distintos: CIB pode veicular conteúdo verdadeiro; desinformação pode ser disseminada por contas autênticas.
A literatura recente (a partir de 2020) tem proposto a categoria mais ampla de manipulação informacional ou information disorder, capaz de englobar fenômenos não textuais, como descontextualização visual, cheapfakes, deepfakes e gaslighting algorítmico.
Uso e Contexto
O termo é central no léxico institucional da UE (EUvsDisinfo), da OEA, da UNESCO e da OTAN. No Brasil, é referência normativa em decisões do STF (ADPF 572, IP 4781), do TSE (Resoluções 23.610/2019 e 23.732/2024) e em projetos legislativos como o PL 2630/2020 (“PL das Fake News”). Cabe registrar a crítica acadêmica ao termo “fake news” — considerado impreciso e politicamente capturado — em favor de “desinformação” como categoria analítica mais defensável.
Ver Também
Referências
WARDLE, Claire; DERAKHSHAN, Hossein. Information Disorder: Toward an Interdisciplinary Framework for Research and Policymaking. Strasbourg: Council of Europe, 2017.
BENNETT, W. Lance; LIVINGSTON, Steven. The disinformation order: disruptive communication and the decline of democratic institutions. European Journal of Communication, v. 33, n. 2, p. 122–139, 2018.
TUCKER, Joshua A. et al. Social Media, Political Polarization, and Political Disinformation: A Review of the Scientific Literature. Hewlett Foundation, 2018.
Verbete do Glossário NEGISC — Núcleo de Estudos em Guerra Informacional e Segurança Cognitiva / GEPSI / IREL / UnB. Licença CC BY-SA 4.0.