Expressão de origem jornalística popularizada após 2016 para designar conteúdo fabricado em formato noticioso, hoje considerada analiticamente inadequada pela literatura especializada por sua imprecisão semântica e captura político-retórica — substituída, no léxico acadêmico, pela tipologia da desordem informacional.


Definição

O termo fake news designou inicialmente, em sua acepção jornalística estrita (BuzzFeed News, 2014–2016), conteúdos fabricados em formato de notícia — sítios falsos imitando estética jornalística, manchetes inventadas com intenção viral, “sites de fazenda de cliques” macedônios identificados na eleição estadunidense de 2016. Nessa acepção restrita, o termo possui referencial empírico definido: fabricação total, com forma noticiosa simulada e finalidade econômica ou política.

A popularização massiva do termo após novembro de 2016 — sobretudo por seu uso retórico pelo então presidente eleito Donald Trump para desqualificar coberturas jornalísticas adversas — produziu duas patologias semânticas que tornaram a expressão analiticamente inviável:

  1. Hiperextensão: “fake news” passou a englobar fenômenos heterogêneos — sátira, erro jornalístico, propaganda estatal, teorias da conspiração, desinformação coordenada, clickbait — apagando distinções operacionalmente relevantes;
  2. Captura político-retórica: o termo tornou-se arma discursiva empregada por líderes autoritários (Trump, Bolsonaro, Duterte, Putin, Orbán) para deslegitimar jornalismo crítico, invertendo o vetor original do conceito.

Por essas razões, Claire Wardle e Hossein Derakhshan (2017) recomendaram explicitamente o abandono do termo no léxico acadêmico, em favor da tipologia tripartida da desordem informacional (misinformação / desinformação / malinformação). A recomendação foi endossada pela UNESCO (2018), pelo Conselho da Europa, pela Comissão Europeia e por instituições brasileiras de pesquisa em comunicação.

Cumpre, contudo, registrar que o termo permanece operativo no uso público e político, e seu emprego pelas plataformas digitais (políticas de “fake news” da Meta, do TikTok) confere-lhe persistência institucional que não pode ser ignorada.


Uso e Contexto

No Brasil, “fake news” entrou no vocabulário institucional via TSE (Conselho Consultivo sobre Internet e Eleições, 2017) e via o “PL das Fake News” (PL 2630/2020) — denominação informal cuja imprecisão técnica foi objeto de crítica acadêmica recorrente. STF e TSE adotam preferencialmente “desinformação” em decisões formais (ADPF 572, IP 4781), reservando “fake news” a contextos descritivos.

A recomendação metodológica do NEGISC é: usar “desordem informacional” como termo guarda-chuva analítico; “desinformação” para o subtipo intencional e falso; e reservar “fake news” para discussões sobre o uso retórico do próprio termo ou referência ao fenômeno restrito de fabricação noticiosa pré-2016.


Ver Também


Referências

WARDLE, Claire; DERAKHSHAN, Hossein. Information Disorder: Toward an Interdisciplinary Framework for Research and Policymaking. Strasbourg: Council of Europe, 2017.

TANDOC JR., Edson C.; LIM, Zheng Wei; LING, Richard. Defining “fake news”: A typology of scholarly definitions. Digital Journalism, v. 6, n. 2, p. 137–153, 2018.

POSETTI, Julie; IRETON, Cherilyn (Org.). Journalism, “Fake News” & Disinformation: Handbook for Journalism Education and Training. Paris: UNESCO, 2018.


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