Categoria analítica abrangente proposta por Claire Wardle e Hossein Derakhshan (2017) para superar a imprecisão do termo “fake news”, articulando três tipos distintos de patologia informacional — misinformação, desinformação e malinformação — classificadas pelo cruzamento dos eixos falsidade e intenção de causar dano.
Definição
A noção de desordem informacional (information disorder) foi consolidada no relatório homônimo encomendado pelo Conselho da Europa e publicado em 2017 por Claire Wardle (First Draft News) e Hossein Derakhshan. A categoria responde a uma constatação metodológica: o termo “fake news” tornou-se simultaneamente impreciso (engloba sátira, erro, fabricação, propaganda) e politicamente capturado (utilizado por líderes para desqualificar jornalismo crítico) — motivos que tornam seu uso analítico inviável.
A tipologia tripartida cruza dois critérios — veracidade do conteúdo e intenção do disseminador:
- Misinformação (misinformation): conteúdo falso, disseminado sem intenção de causar dano. Exemplos: erro jornalístico, sátira mal interpretada, compartilhamento de boato em boa-fé;
- Desinformação (disinformation): conteúdo falso ou enganoso, disseminado com intenção de causar dano político, econômico ou social. Categoria central das operações de informação hostis (ver verbete específico);
- Malinformação (malinformation): conteúdo verdadeiro, disseminado com intenção de causar dano. Inclui doxxing, vazamentos seletivos, discurso de ódio fundado em fatos reais.
O modelo é frequentemente representado como diagrama de Venn entre os eixos falsidade e dano, demarcando zonas operacionalmente distintas — cada qual demandando contramedidas próprias (correção, debunking, regulação de plataforma, proteção legal, etc.).
A relevância analítica reside em três pontos: (1) reconhecer que conteúdos verdadeiros podem ser instrumentos de ataque informacional; (2) deslocar o foco normativo da veracidade para a intencionalidade danosa; e (3) abrir espaço para tratar as três patologias com instrumentos diferenciados, evitando soluções unidimensionais.
Uso e Contexto
A tipologia tornou-se padrão de referência institucional: adotada pela UNESCO (Journalism, “Fake News” & Disinformation, 2018), pela Comissão Europeia (Código de Conduta sobre Desinformação, 2018/2022), pelo NATO StratCom COE e por iniciativas brasileiras como o Observatório de Desinformação do TSE. No campo acadêmico, é referência obrigatória em currículos de jornalismo investigativo, segurança cognitiva e regulação de plataformas.
A literatura subsequente (WARDLE, 2020; BENNETT e LIVINGSTON, 2020) tem incorporado dimensões adicionais — temporalidade, viralidade, materialidade do meio (texto, imagem, áudio, vídeo) — sem, contudo, abandonar o núcleo tripartido original.
Ver Também
- Desordem Informacional (verbete completo)
- Desinformação
- Malinformação
- Fake News
- Desinformação (verbete completo)
- Operações de Informação
Referências
WARDLE, Claire; DERAKHSHAN, Hossein. Information Disorder: Toward an Interdisciplinary Framework for Research and Policymaking. Strasbourg: Council of Europe, 2017.
POSETTI, Julie; IRETON, Cherilyn (Org.). Journalism, “Fake News” & Disinformation: Handbook for Journalism Education and Training. Paris: UNESCO, 2018.
BENNETT, W. Lance; LIVINGSTON, Steven (org.). The Disinformation Age. Cambridge: Cambridge University Press, 2020.
Verbete submetido ao NEGISC — GEPSI / IREL / UnB. Licença CC BY-SA 4.0.