Excesso simultâneo de informação — exata e inexata — durante surtos epidêmicos, que dificulta a identificação de orientações confiáveis e produz efeitos sanitários adversos, conceituado pela Organização Mundial da Saúde como objeto autônomo de gestão de saúde pública.


Definição

O termo infodemia (do inglês infodemic, contração de information + epidemic) foi originalmente cunhado pelo jornalista David Rothkopf em coluna do Washington Post (2003), no contexto do surto de SARS, para descrever a sobrecarga informacional acompanhando crises sanitárias. Foi posteriormente adotado e ressignificado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) durante a pandemia de COVID-19 (a partir de fevereiro de 2020), tornando-se categoria operacional formal da resposta sanitária global.

A definição da OMS (2020) articula três elementos centrais:

  1. Excesso quantitativo: superabundância de informações sobre o tema sanitário, online e offline, que excede a capacidade humana de processamento;
  2. Mistura qualitativa: coexistência de informações precisas (orientações oficiais, evidência científica), imprecisas (erros, traduções defeituosas, informação desatualizada) e deliberadamente enganosas (desinformação sanitária);
  3. Consequências sanitárias mensuráveis: a infodemia produz efeitos epidemiológicos concretos — adesão a tratamentos ineficazes (cloroquina, ivermectina sem indicação clínica), recusa vacinal, comportamentos de risco, sobrecarga de serviços de saúde com casos evitáveis.

Distingue-se a infodemia de fenômenos correlatos: a desordem informacional é categoria mais ampla e atemporal; a infodemia é especificamente vinculada a eventos sanitários agudos, exibindo curva epidêmica análoga à do próprio patógeno — picos, ondas, contágio em rede. A OMS introduziu o termo correlato infodemiologia (campo de estudo) e gestão de infodemia (infodemic management) como prática.

A resposta institucional articula-se em quatro eixos: monitoramento (escuta social, social listening), compreensão (análise de dúvidas, lacunas e narrativas circulantes), resposta (comunicação adaptada, debunking, pré-bunking) e fortalecimento da resiliência (educação em saúde, literacia midiática).


Uso e Contexto

Durante a pandemia de COVID-19, a OMS estabeleceu rede global de gestão de infodemia, com conferências dedicadas (1ª Conferência sobre Infodemia, junho/2020) e publicação do WHO Framework for Managing the COVID-19 Infodemic (2021). O conceito tornou-se padrão de referência institucional, embora também alvo de crítica acadêmica (SIMON e CAMARGO, 2023) por sua metáfora biomédica — que naturaliza a circulação informacional como “patógeno” e pode obscurecer a dimensão política e estrutural do fenômeno.

No Brasil, o termo foi incorporado por publicações da Fiocruz (Observatório Covid-19), do Ministério da Saúde e por iniciativas como o Saúde Sem Fake News. A infodemia da COVID-19 sobrepôs-se a operações políticas de desinformação vinculadas a atores domésticos, tornando o caso brasileiro paradigmático para o estudo da articulação entre patologia informacional sanitária e campanhas de influência políticas.


Ver Também


Referências

WORLD HEALTH ORGANIZATION. WHO Framework for Managing the COVID-19 Infodemic: Methods and Processes for Inclusive and Iterative Policymaking. Geneva: WHO, 2021.

ZAROCOSTAS, John. How to fight an infodemic. The Lancet, v. 395, n. 10225, p. 676, 2020.

SIMON, Felix M.; CAMARGO, Chico Q. Autopsy of a metaphor: the origins, use and blind spots of the “infodemic”. New Media & Society, v. 25, n. 8, p. 2219–2240, 2023.


Verbete submetido ao NEGISC — GEPSI / IREL / UnB. Licença CC BY-SA 4.0.