Infodemia é o excesso de informação — correta e incorreta — que circula durante uma epidemia e que dificulta a localização de fontes confiáveis e de orientação segura. O conceito nasceu no vocabulário jornalístico em 2003 e foi adotado pela Organização Mundial da Saúde em 2020, como diagnóstico do ambiente informacional da pandemia de covid-19.
1. Definição e Escopo
A formulação institucional é da Organização Mundial da Saúde, em relatório de situação de 2 de fevereiro de 2020: a resposta ao novo coronavírus vinha acompanhada de uma “infodemia maciça” — um excesso de informação, parte correta e parte não — que tornava difícil para as pessoas encontrar fontes confiáveis e orientação segura quando precisavam (ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE, 2020).
Três elementos compõem a definição e devem ser retidos separadamente. Volume: não é a informação falsa que caracteriza a infodemia, é a quantidade — a saturação. Mistura: a infodemia contém informação correta, incorreta e de qualidade indeterminada, e é justamente a mistura que produz o efeito, porque o cidadão não dispõe de critério para separar. Dificuldade de orientação: o resultado não é a crença numa falsidade específica, e sim a paralisia — a impossibilidade prática de saber a quem recorrer.
Isso distingue a infodemia de conceitos vizinhos. A desinformação exige conteúdo falso e intenção de causar dano; a infodemia inclui o verdadeiro. A desordem informacional é um esquema classificatório de patologias do conteúdo; a infodemia é um diagnóstico de ambiente, e sua unidade de análise é o sistema de informação em situação de crise, não o item. E há uma diferença de ênfase temporal: a desinformação é tema permanente da competição política; a infodemia é conceito emergencial, formulado para descrever o que acontece quando uma sociedade precisa decidir rápido sob excesso de ruído.
2. Etimologia e Origem Conceitual
O termo é uma fusão de information e epidemic e foi cunhado pelo analista político David J. Rothkopf em coluna no Washington Post de 11 de maio de 2003, em plena epidemia de SARS. O uso original era jornalístico e cirúrgico: descrevia a mistura de poucos fatos com medo, especulação e rumor, amplificada e retransmitida em velocidade mundial pelas tecnologias de informação (ROTHKOPF, 2003).
A palavra ficou quase duas décadas em circulação esparsa, até ser retomada pela OMS em 2020 e transformada em categoria de política pública. A trajetória importa para o conceito: entre 2003 e 2020, “infodemia” muda de gênero textual — de metáfora de colunista a descritor técnico de um problema de saúde pública, com a OMS convocando conferências, publicando orientações e financiando o que passou a se chamar gestão da infodemia (infodemic management).
O vocabulário trazido pela metáfora é o de contágio, e é nele que está o ganho e o problema. Ganho: permite tratar informação como fenômeno de população, com curva, pico e medidas de contenção. Problema: empresta da epidemiologia uma causalidade que a informação não tem — quem “se infecta” com uma crença não é hospedeiro passivo, e a explicação pela virulência do conteúdo tende a apagar a agência de quem compartilha e o incentivo de quem distribui.
3. Desenvolvimento Histórico
2003: SARS. O termo nasce no contexto de uma epidemia com cobertura global e baixa letalidade percebida, em que o volume de especulação superou o de informação verificada. O uso é isolado e não gera literatura.
2020: a adoção institucional. Em 2 de fevereiro de 2020, a OMS incorpora o termo ao relatório de situação diário (ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE, 2020). Ao longo do ano, o conceito se institucionaliza em orientações técnicas e na criação de uma área de trabalho própria, com equipes dedicadas à gestão da infodemia.
2020: a resposta técnico-metodológica. Dois artigos publicados no mesmo ano formulam a agenda. O primeiro, no Lancet, trata a infodemia como problema de comunicação científica em situação de emergência (ZAROCOSTAS, 2020). O segundo, no Journal of Medical Internet Research, propõe uma arquitetura de resposta em quatro pilares: monitoramento da informação circulante, literacia em saúde e em ciência, verificação e melhoria da qualidade do que circula, e tradução oportuna do conhecimento para o público (EYSENBACH, 2020). É a formulação que substitui a metáfora por um programa operacional.
2020–2021: a camada da desinformação. Em paralelo, a UNESCO propõe o neologismo disinfodemic para nomear a interseção entre pandemia e campanhas organizadas de desinformação, com atenção ao comércio de boatos e à monetização por engajamento (POSETTI; BONTCHEVA, 2020). É o momento em que a infodemia deixa de ser apenas um efeito da incerteza e passa a incluir a exploração deliberada dela.
Depois de 2022: consolidação crítica. A literatura passa a examinar o próprio conceito. O balanço mais completo reconstrói a origem do termo, mapeia seus usos institucionais e identifica os pontos cegos da metáfora — entre eles, a tendência a tratar o problema como epidemia de conteúdos e não como problema de infraestrutura e de confiança (SIMON; CAMARGO, 2023).
4. Debate Teórico
A objeção da metáfora. O primeiro debate é sobre o empréstimo conceitual. A metáfora epidemiológica sugere que informação falsa se propaga por contágio, o que implica uma teoria da ação — o receptor passivo — que a pesquisa empírica não sustenta. A crítica proposta por Simon e Camargo mostra que a metáfora orientou políticas públicas antes de ser testada como descrição, e que seus pontos cegos são sistemáticos: ela subestima incentivos econômicos, subestima a ação de Estados e desloca a discussão para o comportamento do cidadão (SIMON; CAMARGO, 2023).
A objeção da securitização. O segundo debate é normativo. Tratar a saturação informacional como ameaça autoriza medidas de contenção — remoção, rebaixamento, rotulagem — que, aplicadas ao discurso público em situação de emergência, tendem a persistir depois dela. A literatura registra o risco de que a gestão da infodemia se converta em administração da opinião, o que aproxima o conceito do campo da segurança cognitiva e exige o mesmo cuidado analítico.
Infodemia versus desinformação. O terceiro debate é de operacionalização. Classificar o ambiente como infodemia leva a respostas de qualidade da informação (verificação, literacia, comunicação de risco); classificar como desinformação leva a respostas de atribuição e sanção. Os dois diagnósticos coexistem no mesmo evento — a pandemia de covid-19 foi ambos —, e escolher qual deles orienta a política é decisão analítica, não descrição da realidade.
5. Casos Documentados
A pandemia de covid-19 (2020–2021). É o caso que gerou o conceito em sua forma atual e o mais bem documentado: a OMS registrou o fenômeno em seus relatórios de situação desde fevereiro de 2020, e no mesmo ano a resposta metodológica apareceu na proposta de gestão da infodemia em quatro pilares (ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE, 2020; EYSENBACH, 2020). O caso é exemplar porque as duas coisas aconteceram juntas: incerteza científica genuína, que produz versões provisórias e depois as corrige, e campanhas organizadas para explorar essa incerteza.
A disinfodemic e a economia do boato. Os relatórios da UNESCO documentam o componente comercial: páginas que monetizam engajamento com conteúdo de saúde, canais que convertem medo em audiência e a dificuldade de distinguir, no agregado, o erro de boa-fé da exploração deliberada (POSETTI; BONTCHEVA, 2020). É o achado que mais diretamente corrói a metáfora do contágio: parte do fenômeno se explica por incentivo, não por virulência.
A CPI da Pandemia no Brasil (2021). A comissão parlamentar de inquérito instalada no Senado Federal em 2021 teve entre seus objetos a disseminação de informação falsa sobre tratamento e prevenção durante a pandemia, e seu relatório final consolidou um registro público de episódios e responsáveis (BRASIL, 2021). O caso interessa ao verbete porque é o momento em que a infodemia brasileira deixa de ser matéria de saúde pública e entra no repertório de investigação política — com o custo previsível de politizar o diagnóstico.
6. Implicações para o Contexto Brasileiro
Na saúde pública. O Brasil teve, simultaneamente, um sistema de informação sanitária de escala nacional e um ambiente de desinformação sobre tratamento com circulação intensa. A combinação é o cenário que a literatura de gestão da infodemia prevê como mais destrutivo: não a ausência de informação correta, mas sua convivência com a incorreta em pé de igualdade aparente.
Na comunicação institucional. A resposta brasileira privilegiou a checagem de fatos e a comunicação de crise, e não a arquitetura dos quatro pilares — o que deixa de fora o monitoramento sistemático e a literacia em saúde como política permanente. A diferença importa: verificação corrige item por item; literacia muda a capacidade de discernir.
Na regulação. As competências sobre desinformação em saúde estão dispersas entre Ministério da Saúde, Anvisa, ANPD e plataformas, sem autoridade coordenadora — a mesma fragmentação descrita em legislação sobre desinformação no Brasil. Em emergência, a fragmentação custa tempo, que é o recurso escasso.
Na pesquisa. O país produziu bastante sobre a pandemia e pouco sobre o ambiente informacional dela: há estudos de caso e de conteúdo, e faltam séries que meçam volume, diversidade e confiança ao longo do tempo. Sem essa série, a infodemia brasileira permanece descrita por episódios.
7. Ver Também
- Desordem informacional
- Desinformação
- Resiliência informacional
- Segurança cognitiva
- Pré-bunking e debunking
- Legislação sobre desinformação no Brasil
- Glossário: infodemia
8. Referências
BRASIL. Senado Federal. Relatório final da CPI da Pandemia. Brasília: Senado Federal, 2021.
EYSENBACH, Gunther. How to fight an infodemic: the four pillars of infodemic management. Journal of Medical Internet Research, v. 22, n. 6, e21820, 2020.
ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Novel coronavirus (2019-nCoV): situation report 13. Genebra: OMS, 2 fev. 2020.
POSETTI, Julie; BONTCHEVA, Kalina. Disinfodemic: deciphering COVID-19 disinformation; dissecting responses to COVID-19 disinformation. Paris: UNESCO, 2020. 2 policy briefs.
ROTHKOPF, David J. When the buzz builds. The Washington Post, Washington, 11 maio 2003.
SIMON, Felix M.; CAMARGO, Chico Q. Autopsy of a metaphor: the origins, use and blind spots of the “infodemic”. New Media & Society, v. 25, n. 8, p. 2219-2240, 2023.
ZAROCOSTAS, John. How to fight an infodemic. The Lancet, v. 395, n. 10225, p. 676, 2020.
Verbete da Enciclopédia NEGISC — Núcleo de Estudos em Guerra Informacional e Segurança Cognitiva / GEPSI / IREL / UnB. Licença CC BY-SA 4.0.