Domínio operacional emergente da OTAN — o sexto, ao lado de terra, mar, ar, espaço e ciberespaço — definido como o espaço em que percepções, crenças, decisões e comportamentos humanos são alvo direto de operações estratégicas adversárias.
Definição
O domínio cognitivo designa, no léxico doutrinário contemporâneo, o terreno onde se desenrola a competição estratégica pela mente humana — individual e coletiva — entendida como alvo operacional autônomo, distinto do domínio informacional (que trata dos fluxos de informação) e do ciberespaço (que trata das infraestruturas digitais). A formalização do conceito é atribuída ao relatório Cognitive Warfare do Innovation Hub do NATO ACT (2020–2021), que propõe o cognitivo como candidato a sexto domínio operacional.
Operar no domínio cognitivo significa, segundo a doutrina aliada, influenciar como as pessoas pensam, percebem e decidem — não apenas o que elas leem ou veem. Os vetores incluem:
- Exploração de vieses cognitivos (confirmação, ancoragem, disponibilidade) por meio de conteúdo direcionado;
- Manipulação do ambiente informacional via algoritmos de recomendação, microtargeting e deepfakes;
- Engenharia da atenção (economia da atenção, sobrecarga deliberada, flooding);
- Ataques à confiança em instituições, mídias, ciência e processos democráticos;
- Manipulação emocional em escala (raiva, medo, identidade tribal).
A diferença em relação à PsyOps clássica é de escopo, alvo e escala: PsyOps tradicionais visavam públicos definidos em teatros militares delimitados; o domínio cognitivo tem como alvo populações civis inteiras, em tempos de paz aparente, com persistência ilimitada e custo marginal próximo de zero — uma transformação qualitativa habilitada pela infraestrutura das plataformas digitais e pela IA generativa.
O conceito tem sido criticado por excesso de abrangência: ao definir como “domínio operacional” tudo aquilo que afeta a cognição humana, corre-se o risco de militarizar campos legítimos da comunicação pública, do jornalismo e da educação.
Uso e Contexto
A doutrina é mais avançada na OTAN e na França (Lutte Informationnelle) que nos Estados Unidos, onde permanece distribuída entre Information Operations (JP 3-13) e Cognitive Maneuver. A Rússia trata o tema sob o guarda-chuva de “guerra informacional-psicológica” (информационно-психологическая война), e a China sob “guerra cognitiva” (认知战, rènzhī zhàn) como parte das Três Guerras. No Brasil, o tema é abordado nos trabalhos do NEGISC/IREL/UnB e da Escola Superior de Guerra (ESG).
Ver Também
- IW — Guerra Informacional
- PsyOps
- IO — Operações de Informação
- Domínio Cognitivo (verbete completo)
- Segurança Cognitiva
Referências
CLAVERIE, Bernard; DU CLUZEL, François. Cognitive Warfare: The Future of Cognitive Dominance. NATO Innovation Hub / Allied Command Transformation, 2022.
DU CLUZEL, François. Cognitive Warfare. Norfolk: NATO Allied Command Transformation, Innovation Hub, 2021.
BACKES, Oliver; SWAB, Andrew. Cognitive Warfare: The Russian Threat to Election Integrity in the Baltic States. Belfer Center for Science and International Affairs, Harvard Kennedy School, 2019.
Verbete do Glossário NEGISC — Núcleo de Estudos em Guerra Informacional e Segurança Cognitiva / GEPSI / IREL / UnB. Licença CC BY-SA 4.0.