Segurança ontológica é a necessidade — de indivíduos, coletivos e Estados — de manter uma narrativa estável e contínua sobre a própria identidade ao longo do tempo; sua erosão produz ansiedade existencial que paralisa a capacidade de decisão racional e constitui alvo privilegiado de operações contemporâneas de guerra cognitiva.

1. Definição e Escopo

A noção de segurança ontológica designa, na teoria das Relações Internacionais e na sociologia, a forma de segurança que diz respeito não à preservação da existência física, mas à preservação da continuidade do self — a manutenção, ao longo do tempo, de uma narrativa coerente sobre quem se é, de onde se vem e para onde se vai. Aplica-se tanto a indivíduos quanto a coletividades, incluindo Estados nacionais, que são tratados, no quadro analítico, como atores dotados de identidade narrativa sustentada por rotinas, memórias institucionais, símbolos compartilhados e mitos fundadores.

A distinção em relação à segurança física é essencial. Um Estado pode ter suas fronteiras intactas, seu poderio militar preservado e seus arranjos institucionais formalmente funcionais e, ainda assim, encontrar-se em estado de insegurança ontológica — quando a narrativa que sustenta sua autocompreensão é desestabilizada por contestação interna ou externa. A consequência distintiva da insegurança ontológica é a ansiedade existencial, qualitativamente distinta do medo (que tem objeto definido): a ansiedade é difusa, projetiva e profundamente paralisante das capacidades de deliberação coletiva.

No quadro dos estudos de Domínio Cognitivo e Guerra Informacional, a segurança ontológica constitui camada operacional mais profunda do que a dissonância induzida ou a manipulação de vieses cognitivos. Operações dirigidas a este nível visam não a alterar crenças específicas, mas a corroer a base narrativa pela qual coletivos discriminam quem são — produzindo o que a literatura denomina captura ontológica, estado em que percepções, decisões e ações do alvo passam a operar sobre identidade fabricada por terceiros.

2. Etimologia e Origem Conceitual

O conceito provém da sociologia. Anthony Giddens, em Modernity and Self-Identity (GIDDENS, 1991), define segurança ontológica como o “sentido de continuidade e ordem nos acontecimentos” que sustenta o “self reflexivo” da modernidade tardia. Para Giddens, a segurança ontológica é cotidianamente produzida e mantida por rotinas — práticas repetidas que fornecem a sensação familiar de que o mundo é previsível e que o sujeito é continuamente reconhecido pelos outros. Sua ruptura produz “situações críticas” em que a continuidade biográfica é interrompida e a ansiedade existencial emerge.

A migração para a teoria das Relações Internacionais é articulada por Jennifer Mitzen (2006), no artigo seminal “Ontological Security in World Politics” (European Journal of International Relations). Mitzen propõe que Estados, à semelhança de indivíduos, têm necessidade de segurança do self — manutenção da identidade biográfica coletiva — e podem, paradoxalmente, preferir conflitos prolongados à sua resolução, quando esses conflitos estabilizaram-se como elementos constitutivos da autoidentificação nacional. A formulação inverte premissas tradicionais do realismo: a busca por segurança ontológica pode produzir comportamentos estatais que sacrificam segurança física em nome de continuidade narrativa.

Brent Steele, em Ontological Security in International Relations (STEELE, 2008), e Bahar Rumelili, em Conflict Resolution and Ontological Security (RUMELILI, 2015), aprofundam o programa, incorporando dimensões temporais, narrativas e afetivas. A obra de Catarina Kinnvall articula segurança ontológica e identidades religiosas e étnicas em contextos de globalização (KINNVALL, 2004). O resultado é um campo teórico maduro, com aplicações que vão da política externa de potências revisionistas à análise de processos de paz e à compreensão de ondas de populismo identitário.

3. Desenvolvimento Histórico

A trajetória do conceito pode ser organizada em três etapas. Primeira etapa (1991–2006): consolidação sociológica em torno da obra de Giddens, com aplicações em sociologia da modernidade tardia, sociologia da saúde e estudos sobre individualização. A discussão é centrada no indivíduo e em sua relação com instituições modernas — sistemas peritos, mercados, fluxos midiáticos.

Segunda etapa (2006–2015): transposição para a teoria das Relações Internacionais por Mitzen, Steele, Rumelili, Kinnvall, Karl Gustafsson e outros. O foco desloca-se para o Estado e para coletividades transnacionais. O programa de pesquisa estrutura-se em torno de três eixos: (i) como Estados constroem e mantêm identidades narrativas; (ii) como rupturas dessas narrativas (derrotas, traumas, reconfigurações geopolíticas) produzem comportamentos defensivos; (iii) como atores politicamente revisionistas podem instrumentalizar a busca por segurança ontológica como recurso estratégico — tema desenvolvido sobretudo no estudo da política externa russa pós-1991.

Terceira etapa (2015 em diante): integração ao quadro dos estudos de guerra híbrida, guerra cognitiva e segurança digital. A literatura passa a tratar a insegurança ontológica como vetor operacional — alvo deliberado de campanhas adversárias. O trabalho de Rumelili (2017) sobre dimensão temporal da insegurança ontológica é particularmente relevante: a manipulação adversária da memória histórica e da projeção futura coletiva torna-se compreendida como modalidades sofisticadas de operação no Domínio Cognitivo. A formulação NEGISC de guerra de segurança ontológica (ontological security warfare) situa-se nessa terceira etapa.

4. Debate Teórico

O primeiro debate é sobre a antropomorfização do Estado. Críticos da escola realista e estruturalista argumentam que tratar Estados como sujeitos dotados de identidade narrativa é categoria sociológica problemática, que reifica abstrações e ignora a multiplicidade de atores e interesses internos. Defensores respondem que, empiricamente, Estados são tratados — interna e externamente — como portadores de identidade, e que a recusa em incorporar essa dimensão analítica priva a disciplina de capacidade explicativa diante de fenômenos como nacionalismo revisionista, persistência de conflitos identitários e respostas estatais a humilhações simbólicas.

O segundo debate diz respeito à relação entre segurança ontológica e democracia. Sociedades democráticas, com pluralismo identitário, debate público aberto e revisões frequentes de autonarrativas, encontram-se em estado de insegurança ontológica permanente em baixo grau — característica que, para alguns autores, é fonte de saúde política (capacidade de autorreflexão e correção) e, para outros, é vulnerabilidade estrutural explorável por adversários autoritários que oferecem narrativas identitárias estabilizadas. O debate tem implicações práticas: políticas de proteção da segurança ontológica democrática devem evitar deslizar para o autoritarismo identitário.

O terceiro debate é metodológico. A operacionalização empírica da segurança ontológica é desafiadora — exige métodos qualitativos, análise narrativa, etnografia política e instrumentos de mensuração de afetos coletivos. A integração com métodos quantitativos (análise de redes, topic modeling, análise de sentimentos em corpora midiáticos) está em fase de consolidação, particularmente em laboratórios de pesquisa que combinam ciências sociais computacionais e teoria de Relações Internacionais.

5. Casos Documentados

A política externa russa pós-1991 constitui o caso paradigmático na literatura. A dissolução da União Soviética produziu ruptura ontológica de larga escala — a narrativa biográfica que organizava a autocompreensão russa como superpotência foi subitamente invalidada. Mitzen, Steele e outros autores documentam como sucessivas administrações russas, particularmente sob Vladimir Putin, articularam uma estratégia de restauração ontológica — recuperação de uma narrativa de grandeza histórica, encenação militar e diplomática dessa narrativa, e instrumentalização do confronto com o Ocidente como elemento estabilizador da identidade restaurada. A doutrina do “mundo russo” (Russkiy Mir) e a narrativa de “denazificação” mobilizada para justificar a invasão da Ucrânia (2022) inscrevem-se nesse quadro.

Os casos da Sérvia pós-Iugoslávia, do Reino Unido pós-Brexit e da Turquia neo-otomana foram igualmente analisados por essa lente — coletivos em busca de restauração ou reconstrução de narrativa identitária após rupturas geopolíticas significativas. O caso turco, em particular, demonstra como projeções identitárias podem reorganizar política externa, doutrina militar e diplomacia cultural de forma integrada.

A literatura recente passa a documentar a exploração adversária da insegurança ontológica como modalidade ofensiva. Campanhas atribuídas à Rússia em sociedades ocidentais (EUA pós-2016, França pré-eleições de 2017, Alemanha pré-eleições de 2017 e 2021) demonstraram uso sistemático de payloads narrativos que questionam pilares identitários — história nacional, instituições democráticas, política de memória — não para promover narrativa específica, mas para produzir insegurança ontológica generalizada na sociedade-alvo.

6. Implicações para o Contexto Brasileiro

O Brasil apresenta vulnerabilidades particulares e historicamente sedimentadas a operações dirigidas à sua segurança ontológica. A narrativa nacional brasileira opera, há décadas, sobre tensões não resolvidas — autocompreensão como “país do futuro” continuamente adiado, ambiguidades sobre o passado escravocrata, debates sobre o lugar da ditadura civil-militar (1964–1985) na memória nacional, ambivalências sobre a identidade racial e regional, e disputa sobre o papel das Forças Armadas na história republicana. Essas tensões pré-existentes constituem pontos de pressão identitária que podem ser instrumentalizados por adversários internos e externos.

O período 2013–2023 fornece registro empírico de operações dirigidas a esses pontos. Campanhas que reescrevem ativamente a memória da ditadura militar (negacionismo histórico sobre desaparecidos, torturas e censura), que contestam a legitimidade fundacional da Constituição de 1988, que reativam clivagens regionais sob roupagem identitária (separatismo do Sul, ressentimento federativo) e que questionam pilares da identidade democrática (sistema eleitoral, judiciário, imprensa) operam, em conjunto, como ataque coordenado à narrativa biográfica do país. O 8 de janeiro de 2023 — episódio em que uma multidão invadiu e depredou as sedes dos três poderes em Brasília — constitui materialização ritual desse ataque: os alvos não foram instalações militares ou econômicas estratégicas, mas os símbolos arquitetônicos da identidade republicana, com efeito calculado de produzir ruptura ontológica visível à sociedade.

A produção acadêmica brasileira sobre o tema é incipiente e dispersa. Trabalhos em sociologia política, estudos da memória (CEPEDOC, NEPM/UNIFESP) e Relações Internacionais (IREL/UnB, IRI/USP, IESP/UERJ) oferecem fundamentação teórica disponível, mas a articulação dessas pesquisas em doutrina nacional de proteção ontológica — integrada às de segurança cognitiva e proteção institucional — está por construir. O marco regulatório oferece elementos parciais: a Lei nº 12.528/2011 (Comissão Nacional da Verdade), a Lei nº 14.197/2021 (crimes contra o Estado Democrático de Direito) e a Estratégia Nacional de Defesa (2016) constituem peças de um quadro maior ainda não articulado. A construção dessa doutrina, articulando memória, instituições democráticas, política externa e proteção do espaço informacional, constitui agenda estratégica de primeira ordem para o NEGISC e para a comunidade brasileira de estudos estratégicos.

7. Ver Também

8. Referências

GIDDENS, Anthony. Modernity and Self-Identity: Self and Society in the Late Modern Age. Cambridge: Polity Press, 1991.

KINNVALL, Catarina. Globalization and religious nationalism: self, identity, and the search for ontological security. Political Psychology, v. 25, n. 5, p. 741-767, 2004.

MITZEN, Jennifer. Ontological security in world politics: state identity and the security dilemma. European Journal of International Relations, v. 12, n. 3, p. 341-370, 2006.

RUMELILI, Bahar (Org.). Conflict Resolution and Ontological Security: Peace Anxieties. London: Routledge, 2015.

RUMELILI, Bahar. Ontological insecurity and conflict: adding a temporal dimension to ontological security theory. Conflict, Security & Development, v. 17, n. 4, p. 281-299, 2017.

STEELE, Brent J. Ontological Security in International Relations: Self-Identity and the IR State. London: Routledge, 2008.


Verbete submetido ao NEGISC — Núcleo de Estudos em Guerra Informacional e Segurança Cognitiva / GEPSI / IREL / UnB. Licença CC BY-SA 4.0.