Campanha de influência é o esforço organizado e sustentado no tempo para alterar percepções, atitudes ou comportamentos de uma audiência definida, combinando atores, mensagens e canais sob uma direção comum; distingue-se do ato isolado de persuasão pela coordenação, pela persistência e pela arquitetura multicanal.


1. Definição e Escopo

O objeto da campanha é a unidade de análise que fica entre a mensagem e a política. Uma postagem isolada não é campanha; uma estratégia nacional de comunicação também não. O que a define é a articulação de meios em torno de um objetivo declarado ou inferido, por um período que comporta preparação, execução e exploração de resultado. Três atributos são cumulativos: coordenação entre atores e ativos, persistência temporal com fases sequenciadas e distribuição multicanal, com mensagens calibradas para plataformas e públicos diferentes.

O vocabulário analítico da área deriva do modelo de comunicação de massa de Lasswell, que decompõe o ato comunicativo em quem diz o quê, por qual canal, a quem e com que efeito (LASSWELL, 1948). A transposição para campanhas acrescenta dois elementos que o esquema original não previa: o efeito pretendido, formulado como alteração mensurável de percepção, atitude ou comportamento, e a métrica interna da operação, que orienta a alocação de recursos durante a execução.

O escopo se delimita por contraste. As operações de informação são categoria doutrinária militar, com atribuição de autoridade e regras de engajamento; a campanha de influência pode ser conduzida por serviço de inteligência, partido, empresa ou grupo sem estatuto estatal. A propaganda computacional designa o uso de infraestrutura algorítmica para distribuir e amplificar conteúdo; é meio possível de uma campanha, não sua definição. A inautenticidade coordenada é categoria de moderação de plataforma, definida por coordenação mais ocultação de identidade, e uma campanha pode ser autêntica e continuar sendo campanha. A diplomacia pública é o caso-limite: é campanha por desenho, mas declara o patrocinador, o que altera o estatuto ético da operação.


2. Etimologia e Origem Conceitual

Campanha vem do latim campania, o conjunto de operações militares de um exército em campo durante um ciclo sazonal, e conserva a marca de origem na extensão temporal e na direção única. Influência vem de influere, o fluxo que age sobre um corpo sem nele penetrar, imagem que a física antiga usava para fluidos e que a linguagem política herdou para designar ação indireta sobre decisão alheia. A expressão composta é recente e pertence ao vocabulário de política de defesa: influence operations consolida-se na doutrina estadunidense de operações de informação e migra, depois de 2016, para o debate público sob a forma influence campaign.

A genealogia prática é mais antiga que o rótulo. A tradição soviética das medidas ativas combinava desinformação, agentes de influência, organizações de fachada e falsificação de documentos em operações com fases, alvos e metas, e é a matriz organizacional das campanhas contemporâneas (RID, 2020). A literatura sobre guerra política moderna descreve o mesmo arranjo em chave comparada, com repertório que vai de propaganda aberta a apoio a atores armados (ROBINSON et al., 2018). O que muda no século XXI não é a lógica da campanha, e sim o custo de distribuição e a possibilidade de medir a resposta do público em tempo real.

Em português, “campanha de influência” convive com “operação de influência”. “Operação” carrega conotação de serviço secreto e de compartimentação; “campanha” sugere duração, planejamento e disputa de opinião. A literatura não estabilizou a distinção, e o uso corrente alterna entre os dois termos para o mesmo objeto; aqui, “campanha” designa o conjunto articulado e “operação”, a célula que o compõe.


3. Desenvolvimento Histórico

1945–1991: medidas ativas. A Guerra Fria institucionaliza a campanha como instrumento permanente, com orçamento, pessoal dedicado e doutrina. O repertório inclui desinformação plantada em veículos estrangeiros, falsificação de documentos e financiamento de organizações de fachada, com avaliação de resultado por fontes humanas e recortes de imprensa (RID, 2020). A medição de efeito é fraca por construção: mede-se a publicação, não a mudança de atitude.

1991–2014: comunicação estratégica e doutrina. O período reorganiza o campo em torno de dois vocabulários que competem: comunicação estratégica, de origem militar e orientada a públicos amplos, e diplomacia pública, de origem diplomática e orientada a prestígio e legitimidade. A doutrina estadunidense de operações de informação consolida a integração de capacidades e fixa a distinção entre influenciar, perturbar e corromper a decisão do adversário. É também o período em que a internet passa de canal auxiliar a ambiente principal, sem que a doutrina acompanhe a mudança.

2014–2018: a campanha como objeto empírico. A anexação da Crimeia e a eleição estadunidense de 2016 produzem o material que funda o campo. Dois relatórios técnicos de 2018, baseados em dados internos de plataforma obtidos por intimação, reconstroem a operação da Internet Research Agency com divisão de trabalho, metas de produtividade por turno e segmentação de audiência por perfil racial e político (DIRESTA et al., 2018; HOWARD et al., 2018). A novidade não é a existência da campanha, e sim a possibilidade de descrevê-la por dentro.

2018–2025: plataformas, atribuição e modelos generativos. A pesquisa passa a tratar a campanha como fenômeno multiplataforma, que migra entre ambientes quando um deles fecha (STARBIRD; WILSON, 2020). A divulgação periódica de remoções cria uma fonte de dados nova e enviesada, que registra o que foi detectado, não o que existiu. Desde 2022, modelos generativos reduzem o custo de produção de texto e de persona, e a literatura discute se o gargalo da campanha deixa de ser a produção e passa a ser a distribuição (GOLDSTEIN et al., 2023).


4. Debate Teórico

Inflação do conceito. A primeira controvérsia é definicional. Se toda ação coordenada de comunicação é campanha de influência, o conceito perde poder discriminante e passa a cobrir publicidade, advocacy e relações públicas. A saída da literatura é normativa antes de descritiva: o que distingue a campanha hostil não é o conteúdo, e sim a ocultação da origem e a natureza dos métodos, com destaque para a coerção e a fraude.

Medição de efeito. A segunda controvérsia é a mais difícil. Campanhas são avaliadas por alcance, engajamento e pesquisa de opinião, e nenhum desses indicadores mede persuasão. A pesquisa de recepção no espaço pós-soviético mostra que a exposição à mídia estatal russa varia por país e por perfil de audiência (HELMUS et al., 2018), o que impede tratar alcance como efeito. A literatura sobre desinformação registra o mesmo impasse: mede-se com precisão a circulação e com imprecisão a consequência (FREELON; WELLS, 2020).

Atribuição. A terceira controvérsia é sobre quem age. A atribuição técnica, que liga infraestrutura a infraestrutura, é distinta da atribuição política, que nomeia um Estado e produz consequência diplomática. A prática do campo combina indícios de infraestrutura, conteúdo e comportamento, e o resultado é probabilístico. A crítica registra o risco simétrico: subatribuição, que deixa operações sem resposta, e sobre-atribuição, que transforma ruído em adversário e serve a agendas de segurança (LANOSZKA, 2016).

Fronteira normativa. A quarta controvérsia é ética e jurídica. A distinção entre comunicação estratégica legítima e manipulação não se resolve pelo conteúdo, porque democracias também produzem mensagens persuasivas enviesadas. Resolve-se por dois critérios que a literatura sobre desordem informacional trata em separado: a transparência do patrocinador e o grau de engano embutido no método (WARDLE; DERAKHSHAN, 2017). Campanha declarada com mensagem exagerada e campanha oculta com mensagem verdadeira ocupam posições distintas nessa escala, e a segunda costuma ser a mais danosa.


5. Casos Documentados

A Internet Research Agency. A reconstrução de 2018 descreve dezenas de páginas e centenas de contas, conteúdo em inglês produzido por falantes não nativos, alocação por temas e públicos e foco declarado em polarização racial e política nos Estados Unidos (DIRESTA et al., 2018). O relatório paralelo do Oxford Internet Institute cruza esses dados com séries de engajamento no ciclo 2012–2018 (HOWARD et al., 2018). É a melhor documentação disponível e a que mostra com mais clareza o limite da evidência: sem intimação, o mesmo fenômeno seria visível apenas como padrão estatístico.

Campanhas multiplataforma. O balanço metodológico das campanhas de 2016 mostra que o objeto atravessa plataformas e que o desenho preso a uma delas perde a trajetória da mensagem (STARBIRD; WILSON, 2020). A unidade de análise “campanha” exige, então, rastreamento entre ambientes, com métricas que não são comparáveis entre si.

O Brasil. A literatura consultada para este verbete não registra reconstrução de campanha brasileira com o acesso a dados internos que os relatórios de 2018 tiveram nos Estados Unidos. O que existe são estudos de rede sobre o ciclo de 2018, análises jornalísticas e relatórios de remoção divulgados por plataformas. A assimetria de evidência reflete o acesso diferenciado a dados e a ausência, no país, de instrumento equivalente à intimação congressional.


6. Implicações para o Contexto Brasileiro

Na regulação. O PL nº 2.630/2020 desloca a discussão para transparência de impulsionamento, identificação de conteúdo patrocinado e dever de cuidado das plataformas. É um desenho voltado ao anúncio e à conta, não à campanha como conjunto articulado: nenhuma das versões em debate exige reconstruir a operação, e uma campanha pode cumprir todas as obrigações e permanecer invisível como campanha.

Na capacidade estatal. A resposta a campanhas exige três capacidades distintas: detecção, atribuição e comunicação pública. A primeira é técnica e depende de acesso a dados; a segunda, de método replicável; a terceira, de credibilidade. O Brasil tem instituições eleitorais fortes e universidades produtivas no tema, e pouca capacidade de acesso a dados, o que concentra a pesquisa em observação de superfície pública.

Na pesquisa do núcleo. A agenda que se abre para o NEGISC é de método: um protocolo de dossiê de campanha que registre ator, mensagem, canal, audiência, fase e métrica, com critério explícito de atribuição e registro do que não foi possível verificar. Não resolve a falta de dados, mas impede que a análise brasileira dependa de relatórios estrangeiros para descrever o que acontece no país.


7. Ver Também


8. Referências

DIRESTA, Renée et al. The tactics and tropes of the Internet Research Agency. Austin: New Knowledge, 2018. Relatório técnico encomendado pelo Senate Select Committee on Intelligence.

FREELON, Deen; WELLS, Chris. Disinformation as political communication. Political Communication, v. 37, n. 2, p. 145-156, 2020. DOI: 10.1080/10584609.2020.1723755.

GOLDSTEIN, Josh A. et al. Generative language models and automated influence operations: emerging threats and potential mitigations. Stanford: Stanford Internet Observatory; Georgetown CSET; OpenAI, 2023. arXiv: 2301.04246.

HELMUS, Todd C. et al. Russian social media influence: understanding Russian propaganda in Eastern Europe. Santa Monica: RAND Corporation, 2018. DOI: 10.7249/RR2237.

HOWARD, Philip N. et al. The IRA, social media and political polarization in the United States, 2012-2018. Oxford: Oxford Internet Institute, 2018.

LANOSZKA, Alexander. Russian hybrid warfare and extended deterrence in eastern Europe. International Affairs, v. 92, n. 1, p. 175-195, 2016. DOI: 10.1111/1468-2346.12509.

LASSWELL, Harold D. The structure and function of communication in society. In: BRYSON, Lyman (org.). The communication of ideas. New York: Harper and Brothers, 1948. p. 37-51.

RID, Thomas. Active measures: the secret history of disinformation and political warfare. New York: Farrar, Straus and Giroux, 2020.

ROBINSON, Linda et al. Modern political warfare: current practices and possible responses. Santa Monica: RAND Corporation, 2018. DOI: 10.7249/RR1772.

STARBIRD, Kate; WILSON, Tom. Cross-platform disinformation campaigns: lessons learned and next steps. Harvard Kennedy School Misinformation Review, v. 1, n. 1, 2020. DOI: 10.37016/mr-2020-002.

WARDLE, Claire; DERAKHSHAN, Hossein. Information disorder: toward an interdisciplinary framework for research and policy making. Strasbourg: Council of Europe, 2017. (Report DGI(2017)09).


Verbete da Enciclopédia NEGISC — Núcleo de Estudos em Guerra Informacional e Segurança Cognitiva / GEPSI / IREL / UnB. Licença CC BY-SA 4.0.