Um programa de leitura em quatro trilhas, montado a partir de duas fontes: o canon que o núcleo mantém no acervo e o syllabus da disciplina Cognitive and Information Warfare and the Maritime Domain, oferecida em 2026 no Programa de Pós-Graduação em Estudos Marítimos da Escola de Guerra Naval.
A ordem não é de importância, e sim de percurso. Quem está entrando no campo começa pela trilha 1; quem já pesquisa vai direto à 4, onde estão as leituras que discutem o próprio conceito.
Trilha 1 — Entrar no campo
CLAVERIE, Bernard; DU CLUZEL, François. The cognitive warfare concept. In: Cognitive Warfare: the future of cognitive dominance. Norfolk: NATO Allied Command Transformation, Innovation Hub, 2022. p. 1-11.
A formulação que fixou o conceito e o critério que o separa das categorias vizinhas: o efeito cognitivo é o objetivo da ação, não seu subproduto. Leitura de abertura porque é curta, é a fonte primária da definição e está disponível integralmente.
VISACRO, Alessandro. A guerra na era da informação. São Paulo: Contexto, 2018.
A sistematização brasileira do campo antes do vocabulário cognitivo. Serve para ver o que o país já pensava sobre informação como arma e o que mudou com a chegada do termo nova-iorquino.
PACE, Rodrigo; COELHO, Emilio. Information as a weapon of mass disruption: from information disorder to cognitive warfare. Revista da Escola de Guerra Naval, Rio de Janeiro, v. 28, n. 3, p. 707-722, 2022. Disponível em: portaldeperiodicos.marinha.mil.br.
Artigo brasileiro publicado em periódico da Marinha que percorre a passagem da desordem informacional à guerra cognitiva. Acesso aberto. O acervo o cataloga como “Coelho; Pace”, mas a ordem da revista é Pace; Coelho.
RID, Thomas. Active measures: the secret history of disinformation and political warfare. London: Profile Books, 2021.
A história longa da desinformação como instrumento de Estado, do século XX aos dias de hoje. Contrapeso empírico a uma literatura que tende a tratar a novidade tecnológica como ruptura absoluta.
Trilha 2 — Tradições doutrinárias
QIAO, Liang; WANG, Xiangsui. Unrestricted Warfare. Beijing: PLA Literature and Arts Publishing House, 1999.
A formulação chinesa que antecipa em mais de uma década a tese de que o combate extrapola o campo de batalha. Ler pela face prescritiva, que a literatura ocidental costuma ignorar.
CHEKINOV, Sergey G.; BOGDANOV, Sergey A. The nature and content of a new-generation war. Military Thought, Moscow, v. 22, n. 4, p. 12-23, 2013.
A doutrina russa da nova geração em fonte primária. É o texto que sustenta a tese da primazia de meios não militares, frequentemente citado e pouco lido.
LOPES, João Ricardo da Cunha Croce. Controle reflexivo russo: teoria militar e aplicações. Coleção Meira Mattos, Rio de Janeiro, v. 16, n. esp., p. 15-41, 2021. DOI: 10.52781/cmm.e012.
A exposição em português do controle reflexivo soviético, com aplicações. Preenche a lacuna entre a menção ritual ao conceito e sua compreensão efetiva.
DU CLUZEL, François. Cognitive Warfare. Norfolk: NATO Allied Command Transformation, Innovation Hub, 2020. 45 p.
O relatório que instituiu a discussão e propôs o Human Domain como sexto domínio. É advocacia doutrinária, e deve ser lido como tal: não traz evidência empírica de eficácia.
Trilha 3 — Casos e evidência
KALB, Marvin; SAIVETZ, Carol. The Israeli-Hezbollah War of 2006: the media as a weapon in asymmetrical conflict. Cambridge, MA: Joan Shorenstein Center, Harvard Kennedy School, 2007. (Research Paper R-29).
Estudo de caso sobre o uso da mídia como arma em conflito assimétrico, anterior ao vocabulário cognitivo. Mostra o fenômeno antes do nome.
JORISCH, Avi. Beacon of hatred: inside Hizballah’s al-Manar television. Washington: Washington Institute for Near East Policy, 2004.
Anatomia de um aparato de propaganda estatal não estatal. Útil para separar operação de informação de campanha publicitária.
HELMUS, Todd C.; HOLYNSKA, Khrystyna. Ukrainian resistance to Russian disinformation: lessons for future conflict. Santa Monica: RAND, 2024.
Relatório sobre resiliência informacional em guerra. Um dos poucos trabalhos do conjunto com desenho empírico explícito e recomendações de política.
Trilha 4 — Ler contra o conceito
DEPPE, Christoph; SCHAAL, Gary S. Cognitive warfare: a conceptual analysis of the NATO ACT cognitive warfare exploratory concept. Frontiers in Big Data, v. 7, art. 1452129, 2024. DOI: 10.3389/fdata.2024.1452129.
Submete o conceito da OTAN aos critérios de bondade conceitual e conclui que ele tem alta coerência interna e baixa operacionalização. Acesso aberto.
NILSSON, Per-Erik; HAGA, Andreas; HELLSTRÖM, Kristina. Definitional ambiguity in cognitive warfare: a critical and systematic conceptual review through ideal-type analysis. Frontiers in Big Data, v. 9, art. 1762571, 2026. DOI: 10.3389/fdata.2026.1762571.
A revisão sistemática que mede o campo: 52 fontes, 44 conceituais, 3 empíricas. Quem quiser saber o que a literatura realmente produziu começa por aqui.
ZILINCIK, Samuel. Cognitive warfare: some sceptical observations from general strategic theory and affective science. European Journal of International Security, 2026. DOI: 10.1017/eis.2026.10057.
A crítica mais radical: o conceito deturparia a natureza do desafio, e a agressão informacional seria melhor compreendida como subversão. Acesso aberto.
O programa do minicurso da EGN
A disciplina Cognitive and Information Warfare and the Maritime Domain foi oferecida em 2026 pelo Programa de Pós-Graduação em Estudos Marítimos da Escola de Guerra Naval, com 15 horas em cinco encontros, em inglês, sob coordenação de William S. Moreira (PPGEM/EGN) e Vinicius M. Carvalho (professor visitante do Programa Pró-Defesa V). O programa é útil como estrutura de curso pronto.
| Aula | Tema |
|---|---|
| 1 | Introdução e quadro conceitual: guerra de informação, guerra cibernética, guerra cognitiva e desinformação |
| 2 | História da guerra cognitiva e informacional: transformação do espaço informacional e respostas institucionais na França e nos Estados Unidos |
| 3 | A tecnologia da guerra cognitiva e informacional: sistemas, ferramentas e plataformas de coleta, manipulação e disseminação |
| 4 | A filosofia da guerra informacional: Arendt, Habermas, Virilio e Byung-Chul Han, e os teóricos reacionários e autoritários do campo |
| 5 | Seminário de encerramento e debates |
Bibliografia do programa:
ARCOS, Rubén; CHIRU, Irena; IVAN, Cristina. Routledge Handbook of Disinformation and National Security. London: Routledge, 2024.
VENTRE, Daniel. Information Warfare. Hoboken: Wiley, 2016.
SLOSS, David. Tyrants on Twitter: protecting democracies from information warfare. Stanford: Stanford University Press, 2022.
WHYTE, Christopher; THRALL, A. Trevor; MAZANEC, Brian M. Information Warfare in the Age of Cyber Conflict. London: Routledge, 2021.
RID, Thomas. Active Measures: the secret history of disinformation and political warfare. London: Profile Books, 2021.
ROOZENBEEK, Jon; VAN DER LINDEN, Sander. The Psychology of Misinformation. Cambridge: Cambridge University Press, 2024.
FRIDMAN, Ofer; KABERNIK, Vitaly; GRANELLI, Fabio. Info Ops: from World War One to the Twitter Era. Boulder: Lynne Rienner, 2021.
HELMUS, Todd C.; HOLYNSKA, Khrystyna. Ukrainian Resistance to Russian Disinformation: lessons for future conflict. Santa Monica: RAND, 2024.
Recursos em linha indicados no programa: Centre for Information Resilience, NATO — Cognitive Warfare e Bellingcat.
Como usar
Se você está chegando ao tema: trilha 1 inteira, na ordem. São quatro textos e dão o vocabulário mínimo para ler o resto sem confundir guerra cognitiva com desinformação.
Se você pesquisa: trilha 4 antes das outras. Ler as críticas primeiro evita reproduzir um conceito que o campo ainda não estabilizou, e mostra onde estão as lacunas que uma pesquisa pode ocupar.
Se você ensina: o programa da EGN serve como estrutura de cinco encontros. A sequência conceito, história, tecnologia, filosofia e seminário funciona para graduação avançada e pós-graduação, e a bibliografia cobre as duas pontas, o manual e a crítica.
Nota de acesso
Obras comerciais não são publicadas neste site. Onde há acesso aberto, a referência traz o DOI ou o endereço; nos demais casos, a indicação é a edição. Os exemplares de estudo do núcleo ficam disponíveis para consulta com a coordenação, e o acervo completo está na Biblioteca.