A recepção brasileira da guerra cognitiva

O que 23 obras dizem sobre como o país importa o conceito

Luiz H. S. Brandão · Análise NEGISC nº 1 · 26 de outubro de 2026


A guerra cognitiva chegou ao Brasil por tradução. A pergunta que interessa não é se o conceito foi importado — foi —, e sim como: com que fidelidade às fontes primárias das tradições que o formularam, com que distribuição de papéis entre agressores e defensores, e com que autonomia em relação ao enquadramento de quem o formulou primeiro.

Uma pesquisa concluída em 2026 mediu isso em 23 obras brasileiras publicadas entre 2006 e 2026, em dois canais institucionais: o militar-doutrinário (11 textos, entre manuais, teses de escola de comando e artigos de periódicos militares) e o acadêmico-civil (12 textos, entre artigos, teses e capítulos). Cinco indicadores, com codificação dupla às cegas, mediram a balança de citações, a distribuição de papéis, o modo de tradução conceitual, a função das citações ao cânone russo e chinês e a presença da voz primária adversária.

O que a hipótese previa — e o que os dados mostraram

A hipótese era a esperada: a literatura brasileira aderiria de modo predominante e acrítico ao enquadramento ocidental, em que a OTAN aparece como defensora das sociedades contra a manipulação cognitiva e Rússia e China como as potências que a prescrevem.

Os dados refutam a hipótese. A adesão sem crítica a esse enquadramento alcança 13,2% das ocorrências codificadas. A maior parte da literatura brasileira não reproduz a distribuição de papéis da forma como a hipótese supunha.

A recepção, porém, é seletiva, e a seletividade é o achado mais importante. A incorporação substantiva do cânone russo e chinês concentra-se em poucas obras que atravessam os dois canais: a maioria importa o enquadramento sem o cânone. E o silenciamento da voz primária adversária é a regra, não a exceção — oito dos doze textos civis e cinco dos onze militares não citam nenhuma fonte primária russa ou chinesa.

Há ainda uma assimetria temática com consequência prática: a camada algorítmica da manipulação — bots, amplificação coordenada, segmentação — comparece onde o objeto é a disputa em redes sociais e falta onde o objeto é doutrina e geopolítica. O resultado é uma literatura em que as duas metades do fenômeno são tratadas por textos diferentes, que raramente se citam.

Por que isso não é um problema de erudição

A distribuição de papéis que a hipótese supôs — o Ocidente defende, os adversários atacam — não é um achado das três tradições. É o ponto de vista da literatura ocidental, e tem genealogia documentável: a doutrina estadunidense de guerra política e psicológica da Guerra Fria, cujo marco é o memorando PPS/30, de George Kennan, que em 1948 propôs a “inauguração da guerra política organizada” como função permanente do Estado (KENNAN, 1948).

A formulação da OTAN é herdeira direta dessa linhagem. A definição operacional corrente — a arte de usar ferramentas tecnológicas para alterar a cognição de alvos humanos que frequentemente desconhecem a tentativa (CLAVERIE; DU CLUZEL, 2022, p. 2) — é enunciada em chave defensiva, e é essa chave que se importa junto com o conceito, mesmo quando não se cita a fonte.

Na margem russa, a prescrição ofensiva é formulada um ano antes da Crimeia (CHEKINOV; BOGDANOV, 2013) e documentada empiricamente cinco anos depois, na operação da Internet Research Agency (DIRESTA et al., 2018). Na margem chinesa, a formulação data de 1999, com a tese de que as fronteiras entre instrumentos militares, econômicos e informacionais do conflito se dissolveram (QIAO; WANG, 1999).

Mapa das três tradições da guerra cognitiva — OTAN, Rússia e China — e a genealogia comum da guerra política estadunidense

Figura 1 — As três tradições em duas faces e a genealogia que distribui os papéis. A literatura brasileira lê cada tradição por uma face só: o achado da pesquisa é que essa distribuição descreve o ponto de vista de quem lê, não as doutrinas.

O debate brasileiro é mais antigo do que se diz

Um dos efeitos do enquadramento importado é a periodização. A literatura costuma datar o debate brasileiro a partir de 2020 — quando o vocabulário cognitivo se difunde. A pesquisa mostra que não: a resenha de Qiao e Wang publicada em A Defesa Nacional em 2006 precede essa data em mais de uma década (MORGADO, 2006). E o levantamento que, em 2023, não identificou “nenhum estudo específico sobre Guerra Cognitiva no Brasil” (AMBROS, 2024, p. 154) registra a dispersão dos canais, não a ausência do tema.

Essa correção de periodização tem consequência analítica. O campo brasileiro não parte do zero ao importar a categoria: dispõe, desde os anos 1970, de doutrina própria sobre informação como instrumento de poder — operações psicológicas, guerra de informação, ação psicológica —, e essa herança condiciona o que o campo reconhece quando lê a literatura nova. Quem importa o conceito sem essa genealogia perde a explicação de por que certos enquadramentos já eram familiares.

O que isso significa para a agenda de defesa cognitiva

A dificuldade de formular uma agenda autônoma de defesa cognitiva no Brasil não decorre da falta de debate. Decorre de uma recepção em que poucas obras carregam o engate substantivo com as fontes primárias, e a maioria importa o enquadramento sem o cânone que o sustentaria.

Isso sugere três tarefas concretas para quem pesquisa o tema no país: traduzir as fontes primárias russas e chinesas, hoje acessíveis apenas em inglês e de modo fragmentado; integrar as duas metades da literatura — a que estuda doutrina e a que estuda plataforma —, hoje separadas; e reconstruir a genealogia nacional, porque a doutrina brasileira sobre o assunto é anterior ao rótulo em duas décadas.

Nenhuma das três exige acesso privilegiado. Todas exigem leitura de fonte primária, que é justamente o que a recepção corrente dispensa.


Esta análise condensa os resultados apresentados no trabalho “A recepção brasileira da guerra cognitiva: análise comparada das tradições da OTAN, Rússia e China (1999–2026)”, aceito para o XIV ENABED (Brasília, 10 a 13 de novembro de 2026). Ver Eventos.

Referências

AMBROS, Christiano Cruz. Guerra cognitiva e militarização da neurociência: programas de pesquisa em neurotecnologias dos Estados Unidos e da China. Revista Brasileira de Estudos de Defesa, v. 11, n. 1/2, 2024.

CHEKINOV, Sergey G.; BOGDANOV, Sergey A. The nature and content of a new-generation war. Military Thought, v. 22, n. 4, p. 12-23, 2013.

CLAVERIE, Bernard; DU CLUZEL, François. The cognitive warfare concept. In: Cognitive warfare: the future of cognitive dominance. Norfolk: NATO Allied Command Transformation, Innovation Hub, 2022. p. 1-11.

DIRESTA, Renée et al. The tactics and tropes of the Internet Research Agency. Austin: New Knowledge, 2018.

KENNAN, George F. The inauguration of organized political warfare. Washington: National Security Council, Policy Planning Staff Memorandum PPS/30, 4 maio 1948.

MORGADO, Sergio Roberto Dentino. “A guerra além dos limites — uma guerra irrestrita”: uma resenha analítica. A Defesa Nacional, v. 92, n. 805, p. 22-35, 2006.

QIAO, Liang; WANG, Xiangsui. Unrestricted warfare. Beijing: PLA Literature and Arts Publishing House, 1999.